Aos 84 anos, a cientista política e professora emérita da USP Maria Victoria Benevides foi indicada ao prêmio internacional Zayed para la Fraternidade Humana. A honraria reconhece sua trajetória de quase cinco décadas dedicada aos direitos humanos.
Trajetória e fundação do partido
Presente no dia 10 de fevereiro de 1980 no colégio Sion, em Higienópolis, a acadêmica acompanhou a criação oficial do Partido dos Trabalhadores. Ao longo de 46 anos, manteve proximidade com a legenda, embora tenha recusado cargos públicos, como o oferecido na gestão de Luiza Erundina na prefeitura paulistana.
Críticas ao esquecimento da base partidária
Apesar da filiação histórica, a ativista aponta desvios na trajetória da sigla que ajudaram a enfraquecer o desempenho eleitoral recente.
“Concordo com a opinião de nomes como Frei Betto e André Singer. O trabalho de base foi esquecido pelo PT. Não adianta ter intelectuais e artistas famosos ligados ao partido, como Chico Buarque e Caetano Veloso”, afirma. “Sou do tempo em que havia grupos de bairro, que são poucos hoje em dia. O que prevalece é a política oficial dos cargos burocráticos. Não digo que essa política não deva ser feita, mas é preciso cultivar a seiva que reside na participação popular.”
O exemplo das comunidades e igrejas
Para ilustrar a importância do engajamento comunitário, ela recorda o Movimento de Saúde da Zona Leste na década de 1970, semente do SUS, e avalia o avanço evangélico.
“Algumas igrejas evangélicas fazem esse trabalho de base, com uma entrada forte e constante na vida das pessoas. Minha faxineira dizia que quando era católica, ia à missa e ninguém sabia o nome dela. O padre não a cumprimentava. Foi para uma igreja evangélica, onde logo passou a fazer parte de um grupo de mulheres. Quando o culto acaba, o pastor fica na porta, cumprimentando um por um e perguntando como anda a vida das pessoas.”
Atuação incansável em comissões e na academia
A ligação com causas sociais se consolidou em 1978, na Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, sob a liderança de dom Paulo Evaristo Arns. Induzida por Margarida Genevois e Fábio Konder Comparato, a estudiosa uniu ativismo e produção intelectual, resultando em obras clássicas da ciência política brasileira e em 27 anos de docência na Faculdade de Educação da USP.
Questionada em sala de aula sobre o conceito de dignidade, ela costumava responder: “Respondi que podemos não saber definir exatamente o que é dignidade, mas sabemos identificar com clareza a indignidade. São situações como a dos doentes que apodrecem nas filas de ambulatórios, das mulheres que sofrem violência doméstica, das crianças vendendo coisas na rua em vez de estar na escola”.
Preocupações com o futuro e o cenário político
Mesmo integrada a conselhos como o Instituto Vladimir Herzog e a Comissão Arns, a professora manifesta forte preocupação com o cenário institucional e com um eventual governo de Flávio Bolsonaro.
“É grave o STF se ocupar de discussões sobre arranjos pessoais em vez de se concentrar em grandes questões jurídicas. Os contatos espúrios de ministros do Supremo com o grande capital levam a um descrédito da instituição. A Constituição ficou esquecida”, diz.
Sobre o cenário eleitoral e o risco de retrocessos, ela complementa: “Pode vir uma repressão feia em cima de sindicatos e estudantes”, além de criticar a expansão das escolas cívico-militares: “Educação militar não combina com educação democrática. O princípio da escola militar é a hierarquia e a obediência, enquanto o princípio da escola democrática é a ampliação do conhecimento e o respeito às individualidades”.
Apesar dos temores em relação à perda de liberdades e aos direitos das populações indígenas, a veterana mantém a convicção intacta e recusa o pessimismo institucional. “Há um pecado mortal na vida política, que é a perda da esperança. É preciso entusiasmar a juventude”, conclui.