A advogada Miriane Ferreira, com mais de 2 milhões de seguidores nas redes sociais, compartilhou publicamente que enfrentou o casamento infantil aos 15 anos. Nascida em Arapongas, no Paraná, ela aceitou se unir a um homem com quase o dobro da sua idade na tentativa de fugir dos abusos cometidos pelo próprio padrasto dentro de casa.
Origem da vulnerabilidade e busca por proteção
Criada apenas pela mãe ao lado de três irmãos e sem a presença paterna, Miriane viu o ambiente familiar deteriorar após a mãe sofrer um aneurisma, momento em que o padrasto iniciou os abusos. Aos 13 anos, ela conheceu um adulto e enxergou naquela relação a única saída para escapar do lar violento.
“Sei também que aquilo não era uma história de amor entre iguais. Era um homem adulto e uma menina de 13 anos procurando proteção”, contou ao g1.
O enlace matrimonial durou pouco tempo. Posteriormente, a paranaense enfrentou novos ciclos de violência em relacionamentos, chegando a ser proibida de estudar por um dos parceiros. Com o apoio emocional e financeiro da irmã, ela conseguiu terminar os estudos básicos, entrar na faculdade de Direito e mudar o rumo de sua trajetória.
Da advocacia tradicional ao sucesso nas redes sociais
Embora o plano inicial fosse seguir a magistratura, os estágios acadêmicos transformaram sua visão. Ao lidar diretamente com mulheres vítimas de violência doméstica, dependência financeira e falta de instrução legal, ela redirecionou seu propósito profissional.
Hoje em dia, perfis no Instagram e no TikTok servem como ferramentas para esclarecer, muitas vezes com pitadas de humor, questões cotidianas sobre divórcio, união estável, partilha de bens e relações abusivas, acumulando milhões de visualizações em suas postagens.
Panorama alarmante do casamento infantil no país
A vivência de Miriane ilustra uma realidade persistente no território nacional. O Censo de 2022 apontou a existência de cerca de 32,4 mil crianças entre 10 e 14 anos em situações de união conjugal.
Estatísticas do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) colocam o Brasil na liderança absoluta de casamentos infantis na América Latina, além de ocupar a sexta colocação em nível global.
A legislação brasileira baniu o casamento civil para menores de 16 anos em 2019, permitindo apenas para adolescentes de 16 e 17 anos mediante aval dos responsáveis. No entanto, registros oficiais de 2024 mostraram 193 uniões civis envolvendo menores de 16 anos, um acréscimo de 91 registros em relação ao período anterior.
Especialistas da área apontam forte correlação entre essas uniões forçadas e fatores como vulnerabilidade socioeconômica, desigualdade de gênero, evasão escolar e violência sistêmica.
Para a influenciadora e jurista, o episódio traumático moldou sua missão atual de conscientização. Olhando para trás, ela reconhece que a necessidade daquela jovem era de acolhimento institucional, e não de matrimônio.
“Hoje compreendo que o que faltou àquela menina não foram conselhos, mas proteção. E, se eu realmente pudesse fazer alguma coisa, simplesmente a levaria para casa e cuidaria dela com muito amor.”