[CONTEUDO]
Embora a fumaça visível dos incêndios florestais desapareça rapidamente após dias críticos, novos estudos indicam que as queimadas desencadeiam uma poluição do ar persistente e sutil. Enquanto os riscos das pequenas partículas conhecidas como PM2,5 já eram amplamente mapeados, pesquisadores agora direcionam a atenção para o aumento preocupante do gás ozônio ao nível do solo provocado pelo fogo.
O perigo invisível do gás ozônio
Diferente da camada atmosférica que protege o planeta da radiação solar, o ozônio na superfície terrestre é altamente tóxico para o sistema respiratório humano. A exposição prolongada a esse elemento já foi diretamente relacionada ao agravamento de quadros de asma em crianças, além de patologias pulmonares e cardíacas em adultos. “Há pouquíssima dúvida de que a exposição ao ozônio pode causar mortes prematuras”, afirmou o médico John Balmes, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estuda o elemento.
Inteligência artificial revela avanço silencioso
Para mapear esse fenômeno com precisão, cientistas utilizaram o aprendizado de máquina para cruzar dados de satélites, medições de superfície e modelos atmosféricos por quilômetro quadrado. Os resultados publicados na revista Science demonstraram que, após uma queda constante no início dos anos 2000, os níveis de ozônio voltaram a subir em 2015. Essa reviravolta havia passado despercebida pela rede tradicional de monitoramento, concentrada majoritariamente em centros urbanos. “A tendência se inverteu exclusivamente por causa dos incêndios florestais”, afirmou Meng Zhou, pesquisador da Nasa e um dos autores do estudo. “Não esperávamos que o impacto fosse tão grande.” A estimativa é que 43 milhões de pessoas tenham sido expostas a patamares perigosos do gás entre 2022 e 2024, fazendo o progresso ambiental retroceder de três a seis anos.
Poluição a milhares de quilômetros de distância
Outra descoberta alarmante aponta que os incêndios ocorridos na região Oeste afetavam severamente os níveis de ozônio no Leste norte-americano. Dava-se o caso de o ar ser poluído a milhares de distância de onde havia fumaça visível no céu. O cientista Minghao Qiu destacou que, historicamente, a agência ambiental americana combateu fontes industriais por meio da Lei do Ar Limpo de 1963, mas agora enfrenta uma nova fonte de rápida transformação. O especialista Daniel Jaffe ressalta que as indústrias ainda respondem pela maior parte do ozônio, tornando a regulamentação indispensável, embora as mudanças climáticas acelerem incêndios cada vez maiores e mais extremos. Projeções futuras indicam que, em um cenário de forte aquecimento global, a fumaça poderá causar cerca de 2 milhões de mortes nos Estados Unidos nas próximas três décadas, superando os custos econômicos de todos os demais danos climáticos combinados.
Diante desse cenário de rápida evolução, especialistas reforçam a necessidade de maior atenção à respiração humana, visto que os pulmões entram em contato com uma quantidade diária de ar muito superior à de qualquer outro elemento de consumo. “Todo esse campo está evoluindo muito rapidamente, porque os próprios incêndios florestais estão mudando muito depressa”, afirmou Qiu. “Até cinco anos atrás não tínhamos incêndios de tamanha magnitude.”