Antes mesmo do início oficial dos desfiles da sexagésima primeira edição da São Paulo Fashion Week, a capital paulista ganha atrações culturais voltadas para o resgate histórico da principal semana de moda do país. Com curadoria de Paulo Borges, criador do evento, duas exposições assinadas por Davi Ramos e Fernanda Calfat apostam no caminho inverso das passarelas tradicionais e voltam os olhos para o passado.
Moda Entre Olhares no Instituto ViaFoto
A maior das mostras, intitulada “Moda Entre Olhares”, ocupa o Instituto ViaFoto, no Largo da Batata, zona oeste da cidade, reunindo figurinos de 22 marcas nacionais criados entre 2002 e 2024. Cada peça de arquivo ganhou uma nova dimensão dramática ao ser combinada com um chapear exclusivo e um retrato inédito assinado por Gustavo Ipolito.
“Eu procurei ser fiel a cada marca”, diz Ramos. “Que o estilista olhasse e se identificasse com o meu estilo em cima da roupa dele.”
A seleção de marcas descentraliza o circuito tradicional ao incluir nomes como Meninos Rei, Ateliê Mão de Mãe, Normando e Lino Villaventura ao lado de veteranos como Alexandre Herchcovitch e Walter Rodrigues. Na expografia de Paulo Borges, o uso estratégico da penumbra e da luz de lanternas nas fotografias transforma a sombra no grande fio condutor da mostra.
“Uma imagem nasceu quando o Alexandre fez aquela roupa, e ela está emprestando aquele momento para que se crie outra imagem”, diz. “Essa sombra, para mim, é o DNA dessa aura criativa.”
“Quando você coloca o chapéu, as imagens saem da realidade e criam uma imagem dois, três degraus acima”, diz Davi Ramos sobre o impacto das peças que encabeçam os looks.
Reflexos celebra a trajetória de Fernanda Calfat
Enquanto isso, o espaço Mula Preta, nos Jardins, abriga a mostra “Reflexos”, que marca os vinte e cinco anos de carreira da fotógrafa de passarela Fernanda Calfat. Com passagem de longa data pela Getty Images, a profissional reuniu sessenta e três imagens que documentam o evento desde os seus primeiros anos áureos.
“No registro de passarela, você tem dezenas de imagens da mesma história, do mesmo momento. Cada fotógrafo tem uma”, diz Borges. “Como é que isso pode virar uma exposição?”
A solução encontrada foi estruturar a exposição através de memórias afetivas e textos escritos pelos próprios personagens retratados, como Costanza Pascolato, Marcelo Sommer e Luciana Curtis. As fotografias, impressas em papel arroz, aparecem suspensas pelo espaço e revelam momentos icônicos da moda nacional guardados metodicamente pela fotógrafa ao longo de décadas.