O Deus de Israel e dos cristãos é um Deus voluntarioso. Ele escolhe os seus. E, quando o faz, o objeto da sua escolha é tomado de assalto, sem que se possa oferecer resistência. Este é um traço deste que é o maior personagem da literatura ocidental —não falo aqui do ponto de vista da fé, não porque a negue como experiência humana essencial, mas, sim, porque não é o meu ponto de vista.
O traço voluntarioso nas divindades antigas
Se ampliarmos o olhar sobre a história das religiões, veremos que esse caráter voluntarioso é um traço comum aos deuses e deusas em geral. Por exemplo, na tragédia de Eurípides, “Fedra”, Afrodite decide castigar Hipólito pelo fato de ele adorar apenas a deusa Ártemis. Esse castigo virá pela paixão por ele que ela lançará sobre sua madrasta Fedra, causando muita destruição.
Uma causa possível desse elemento voluntarioso das divindades pode ser a experiência que temos, desde sempre, de que estamos à mercê de elementos exteriores e interiores que nos assolam. No limite, sentimos que não escapamos da “vontade dos deuses” e, portanto, buscamos negociar com essa vontade via sacrifícios, oferendas, orações, liturgias e lágrimas.
Temor, tremor e a busca por sentido
Temor e tremor são nossa sina. Atribuímos uma intenção a tudo o que nos acontece e que não podemos controlar. Decifrar essa intenção é parte do exercício da fé nos deuses. O ato de decifrar sua vontade é fundamental para atribuirmos sentido às coisas que nos acontecem ao longo da vida e da história. Precisamos de água, comida e sentido para viver.
Assim sendo, o Deus israelita não é absolutamente original no seu caráter voluntarioso. Se olharmos para o personagem em questão, principalmente no Velho Testamento ou na Bíblia hebraica, ele apresenta traços comuns aos deuses da Antiguidade, a começar pelo fato de que ele escolhe um povo e combate ao lado dele. Esse mesmo povo será aquele que narrará a história desse Deus e das suas escolhas, envolvendo o chamado povo eleito.
Eleitos e narrativas bíblicas
Se mergulharmos nessa narrativa, veremos que ele tem seus eleitos. Abel, filho de Adão e Eva, morto pelo irmão Caim, desprezado por Deus. Noé e sua família, os eleitos para sobreviver ao dilúvio. Os profetas, vítimas da mão pesada de Deus sobre suas cabeças, mensageiros de tantas notícias devastadoras.
O rei Davi, o bem-amado de Deus, apesar do seu caráter libidinoso, ambicioso e violento, muitas vezes. Nos Salmos atribuídos a ele —provavelmente não escritos por ele, pelo menos na sua totalidade—, percebem-se já traços da doçura de Deus, assim como da sua misericórdia, ao lado do seu duro julgamento dos ímpios.
No Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão, filho do rei Davi e Bate-Seba, é muito claro que somos pó ou nuvem de nadas diante da vontade de Deus. Este acima do Sol, e nós abaixo do Sol. Vaidade das vaidades, tudo não passa de vazio.
A vulnerabilidade humana diante do sagrado
Quando o salmista diz que sua vida não passa de uma sombra que passa, cuja grandeza ínfima cabe na palma da mão de Deus, trata-se da mesma “cosmologia bíblica”, descrita no Eclesiastes, em que somos pó diante da vontade infinita de Deus. O Eclesiastes fala do nosso lugar no universo, uma nuvem de nadas.
Essa condição cosmológica fere nosso orgulho e nossa pretensão de suficiência. Determina, assim, nossa insuficiência diante do mundo e de Deus. Enfim, nossa vulnerabilidade estrutural, ou ontológica, como se costuma dizer em filosofia.
No Novo Testamento, repete-se esse caráter voluntarioso, mesmo que de algum modo atenuado na sua violência —se excluirmos a paixão de Cristo, em si, um ato de enorme violência, reconhecido pelo próprio Cristo, seja em Getsêmani, seja na cruz.
Maria, mãe de Jesus, “teotókos” —mãe de Deus—, como dizem os gregos ortodoxos, também é escolhida à revelia da sua vontade e sofrerá por ver o martírio do seu filho amado. Jesus escolhe seus apóstolos de forma voluntariosa, arrancando-os das suas vidas comuns e lançando-os ao martírio.
Ao longo da história posterior ao período bíblico, o dito povo eleito será lançado aos leões inúmeras vezes, culminando no Holocausto —que recebe esse nome, justamente, pelo caráter teológico atribuído ao massacre dos judeus pelos nazistas— e no Sete de Outubro. A suspeita de que a mão de Deus se manifesta em toda a história do povo eleito revela o peso desta mesma mão sobre a cabeça desse povo feito de sacerdotes.
Já no cristianismo, a ideia de graça —”cháris”, nas cartas de Paulo— virá coroar a vontade de Deus com uma beleza que lhe é peculiar. A gratuidade ou contingência da graça encanta e atordoa a consciência cristã. Por que Deus escolheria alguns para dar a sua graça e não a todos?