O uso de termos pejorativos direcionados a eleitores conservadores tem gerado um abismo cada vez maior entre a esquerda e parcelas importantes da população. A constatação é da professora e pesquisadora Elisa Signates, especialista em Políticas Públicas e mestre em Sociologia, que aponta esse comportamento como um obstáculo severo para o entendimento das demandas populares.
O impacto de termos depreciativos no debate
Para a pesquisadora, a ridicularização de grupos específicos invalida preocupações legítimas da sociedade. O fenômeno se manifesta em rótulos que desqualificam a visão de mundo de trabalhadores e pequenos empreendedores que não votam em partidos progressistas.
“Expressões como ‘pobre de direita’ ou ‘CEO de MEI’, que ganhou bastante repercussão, são exemplos disso. São termos que acabam ridicularizando determinados grupos sociais e desconsiderando suas preocupações”, afirma.
Segundo a análise sociológica, o longo período de governos petistas gerou em parte da militância uma postura de superioridade e menosprezo. Essa atitude faz com que o eleitorado conservador se sinta desrespeitado e sem espaço no debate público.
“Essas pessoas se sentem ofendidas e passam a ter a percepção de que suas reivindicações não são legítimas. Mas elas são. Existem críticas válidas ao PT, assim como a qualquer outro governo”, pontua.
Limites democráticos e discursos da extrema-direita
A erosão do debate democrático também se manifesta na escalada de agressões e na incapacidade crônica de opositores conversarem entre si, um cenário que preocupa especialistas em ciências sociais.
“Acredito que esses limites começam a ser ultrapassados quando há violência ou quando as pessoas deixam de conseguir dialogar. Atualmente, temos dificuldade até mesmo de reunir duas pessoas com posições políticas diferentes, uma de direita e outra de esquerda, para um debate”, avalia.
Enquanto a esquerda tropeça na comunicação, a extrema-direita consegue mobilizar o eleitorado explorando sentimentos de pertencimento e valores tradicionais por meio de slogans de forte apelo emocional, como a promessa de salvar o país.
Cenário político e articulação no campo conservador
O xadrez político também passa por transformações na direita tradicional e moderada. Questionada sobre uma possível guinada pragmática no grupo ligado a Jair Bolsonaro, Elisa analisa o perfil do senador Flávio Bolsonaro.
A socióloga pondera que a habilidade de articulação não se traduz necessariamente em grandes entregas sociais, mas reconhece a destreza do parlamentar em negociar nos bastidores da política brasileira.
“Flávio Bolsonaro tem um perfil diferente do pai. Na minha avaliação, ele demonstra maior capacidade de articulação política e de elaboração de estratégias”, diz.
Apesar de não o considerar despreparado para o jogo institucional, a pesquisadora mantém ressalvas quanto à agenda que tal grupo político pretende implementar e seus impactos para os direitos sociais.
Por fim, a especialista diferencia essa habilidade tática da bagagem histórica acumulada pelo atual presidente da República, cuja formação sindical legou uma habilidade ímpar para a formulação de acordos e sobrevivência institucional.