Secretária de educação de Goiás aponta déficit de permanência e não de candidatos

O cenário educacional brasileiro enfrenta debates intensos sobre a renovação dos quadros docentes, impulsionado por estatísticas recentes que indicam um envelhecimento da categoria e a retração na entrada de jovens. Contudo, a visão da gestão pública em Goiás diverge da tese de escassez generalizada de mão de obra para a área.

O verdadeiro gargalo na rede de ensino

Para a secretária de Estado da Educação de Goiás, Fátima Gavioli, a dificuldade não reside na atração inicial de profissionais por meio de seleções públicas, mas na retenção daqueles que assumem os cargos. Segundo a titular da pasta, o cotidiano escolar e a adaptação à rotina geram desistências inesperadas.

“Não vejo que está tendo um apagão de candidatos nos concursos. Eu vejo que tem um apagão de quem realmente quer ir para a escola dar aula na prática.”

A gestora aponta que o impacto emocional e a diferença entre a teoria acadêmica e a vivência escolar provocam pedidos de exoneração imediatos. A estabilidade do cargo muitas vezes não é suficiente para manter o docente na função diante do volume de exigências cotidianas.

“Ele toma posse, vai para a escola, e aí tem duas coisas que acontecem: ou ele lida com questões emocionais, porque o choque é tremendo, ou ele pede exoneração. O cara passou, ganhou estabilidade, mas quando ele bate na sala de aula: ‘Peraí, não, não, não. Isso aqui eu não quero’. Então ele sai”, destaca.

Críticas à formação a distância e dados estaduais

Outro ponto abordado no diagnóstico da secretária é a qualidade dos cursos de licenciatura na modalidade a distância. Na avaliação dela, a ausência de uma vivência prática robusta durante a graduação deixa o profissional despreparado para o ambiente escolar.

“O Brasil está sofrendo um desgaste muito grande com a modalidade EaD para educação. O professor vai lá, faz o curso totalmente por EaD e inclusive não tem estágio. Aí ele passa no concurso, toma posse, e agora? Agora ele tem que dar aula, mas a escola não ensinou ele a dar aula, a faculdade não ensinou ele a dar aula, ele não teve estágio”, avalia.

Atualmente, a rede estadual goiana conta com 25.340 professores, sendo 17.700 efetivos e 7.640 temporários. Para ilustrar a alta procura por vagas, a secretária relembrou o histórico de certames realizados na região.

“Primeiro, eu dei posse para 480 professores que tinham sido aprovados no concurso em 2017. […] Aí eu abro um concurso gigante, 5.050 vagas no Estado de Goiás. No concurso que eu fiz, deu três por um. Se abrisse hoje um concurso em Goiás para mais 5 mil vagas, você pode ter certeza que teria três por um novamente. Não vai faltar inscrito. Vai faltar depois da posse, quem é que fica e quem é que sai”, reforça.

Evolução salarial e valorização

No quesito remuneração, Fátima destacou a escalada do Estado no ranking nacional, saindo da 22ª posição em 2019 para o quarto lugar atual. Os valores iniciais, somados a gratificações e adicionais por titulação, elevam o patamar de entrada na carreira.

“Em 2019, ele entrava com R$ 3.980. Aí ele dobrava, pegava mais 20 horas, ia para R$ 5.800. Ficava com 60 horas e dava 42 aulas. O professor toma posse hoje com um salário de R$ 5.180. Tem mais R$ 2 mil de regência, R$ 500 de alimentação e R$ 500 de auxílio. Chega a aproximadamente R$ 8.100. Se tiver mestrado, recebe mais 40%, chegando a cerca de R$ 10.400 na entrada. Isso é um salário baixo no Brasil hoje? Não é. Ele tem 40 horas, mas dá 30 aulas”, explica.

Conflitos e pressão sobre os docentes

Por fim, a secretária chamou atenção para a deterioração do respeito à figura do professor, impulsionada por polarizações sociais e familiares que acabam repercutindo dentro das salas de aula.

“Está acontecendo uma guerra ideológica tremenda, onde nós temos lados, alguns de um lado, outros de outro, e os lados se ofendem mutuamente. Se ela vê na família um desrespeito em relação a autoridades […] seu filho está assistindo tudo. Ele vai para a escola, por que ele tem que respeitar a autoridade do professor?”, questiona.

Ela também manifestou preocupação com episódios nos quais a atuação docente é colocada sob suspeita precipitada, relatando casos de forte desgaste emocional gerados por acusações direcionadas a profissionais da rede.

“Esses dias mesmo uma menina sofreu bullying dentro da escola e eles abriram um processo tão pesado contra o profissional que, quando eu li o processo, chorei. Falei: ‘Meu Deus, o que é and isso?’”

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