Goiânia verde aos 93 anos: desafios na gestão ambiental e o papel do MP-GO

A gestão das áreas verdes em Goiânia está no centro dos debates sobre qualidade de vida e preservação ambiental. Próxima de completar 93 anos, a capital goiana carrega o título histórico de uma das cidades mais arborizadas do país e possui leis modernas, mas enfrenta barreiras severas para proteger seu patrimônio natural diante do avanço imobiliário e da priorização do transporte individual.

Desafios estruturais e pressão imobiliária

Especialistas apontam que a cidade conta com arcabouço legislativo sólido, incluindo Planos Diretores e decretos de parques. Contudo, a expansão urbana desordenada e a priorização de veículos particulares ameaçam a integridade dos espaços naturais. O ambientalista Nicolas Behr destacou que os automóveis representam um grande perigo para a vegetação e os gramados locais. “Realmente o grande inimigo das áreas verdes, das árvores, dos gramados, são os automóveis. Esse transporte individual é uma ameaça para as áreas verdes de Goiânia. Querem duplicação de pista, tornar o caminho dos carros mais perto, então às vezes tem que cruzar um parque, mas não, desvia. A prioridade deveriam ser as árvores. É possível conciliar a expansão urbana com a preservação ambiental porque a gente precisa disso para sobreviver”, declarou.

Além disso, Áreas de Preservação Permanente (APPs) sofrem com degradação histórica e ocupações irregulares. A arquiteta e urbanista Maria Ester ressaltou que as decisões administrativas muitas vezes falham na proteção desses locais. “As decisões de canalização de córrego são momentos onde a APP é destruída. A própria gestão toma conta de fazer mau uso das APPs, enquanto o setor imobiliário faz pressão para que aprovem leis que liberem o uso dessas áreas”, afirmou.

Importância da flora nativa e do controle térmico

A presença de vegetação vai muito além da estética, atuando diretamente no microclima urbano. O médico veterinário Antônio El Zayek explicou que a cobertura arbórea ajuda no controle térmico e na umidade do ar. “Essas áreas e esses bolsões têm uma função muito forte de diminuição da temperatura e de hidratação do ar. Uma árvore chega a bombear até mil litros de água para o ar durante a estação, principalmente durante a estação seca. Ela não tem coração, mas bombeia água para nutrir as suas extremidades e acaba hidratando o ar”, pontuou.

Outro ponto crítico levantado pelos profissionais é o predomínio de espécies exóticas em detrimento da flora do Cerrado. A proliferação descontrolada de plantas invasoras, como a leucena, reduz a biodiversidade local. Para reverter o cenário, especialistas defendem metas contínuas de reflorestamento, uso obrigatório de espécies nativas em projetos paisagísticos e maior rigor na fiscalização.

Atuação do Ministério Público de Goiás

Diante desse cenário, o Ministério Público de Goiás (MP-GO) expediu recomendações à Prefeitura de Goiânia e à Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma). O órgão ministerial orienta a padronização de laudos técnicos para vistorias, podas e supressões de árvores, além da aquisição de tecnologias avançadas para diagnósticos fitossanitários, como tomógrafos arbóreos.

A recomendação também enfatiza a necessidade de criar uma plataforma digital para consulta pública, garantindo maior transparência nas intervenções urbanas e no cumprimento de compensações ambientais. Em nota, a Amma informou que parte das diretrizes já integra a rotina do órgão e que estuda a implementação das melhorias apontadas pelo Ministério Público.

Deixe um comentário