O índice de devastação no bioma Cerrado alcançou o patamar mais baixo já registrado desde o início dos registros oficiais, em 2001. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a destruição da cobertura vegetal nativa recuou 23,8% em relação ao levantamento antecedente, totalizando uma área desflorestada de 5.516,69 km² — volume inferior aos 7.235,27 km² medidos no intervalo correspondente do ano anterior.
Com essa redução, o índice superou a marca mais positiva até então obtida pela série histórica, que pertencia a 2019, quando a perda florestal foi de 6.319 km². Os números foram apurados a partir de monitoramentos espaciais conduzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) através da plataforma BiomasBR.
Cenário regional: Matopiba segue concentrando devastação
Apesar da retração global dos indicadores, a pressão sobre o ecossistema ocorre de forma heterogênea. A fronteira agropecuária do Matopiba — abrangendo porções territoriais de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — concentrou 74,3% de toda a área convertida no Cerrado durante o período analisado.
O Maranhão liderou o ranking em volume de perda vegetal absoluta, computando 1.718,59 km² (uma redução de 14,3% em sua taxa). Em seguida figurou o Tocantins, responsável por 1.263,06 km² suprimidos (-15,2%). A Bahia apresentou diminuição de 38%, chegando a 489,75 km². A queda mais expressiva da região ocorreu no Piauí, que encolheu seus índices em 53,7%, passando de 1.350,44 km² para 625,24 km².
Fora do Matopiba, outros polos tradicionais demonstraram diferentes comportamentos:
- Goiás: registrou recuo de 8,9%, caindo de 230,97 km² para 210,37 km² desmatados;
- Minas Gerais: contabilizou queda de 8,7%, saindo de 512,02 km² para 467,34 km²;
- Mato Grosso do Sul: reduziu a taxa em 23,3%;
- Mato Grosso: apresentou estabilidade praticamente estagnada, com leve variação negativa de 0,2% (de 455,39 km² para 454,52 km²).
Fiscalização ostensiva e incentivo ao crédito rural
A tendência de queda é atribuída pelo governo federal ao fortalecimento do PPCerrado (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Bioma Cerrado), programa reativado em 2023. A iniciativa combina controle territorial, vigilância por satélites e fomento à produção sustentável.
No intervalo de 2023 a 2026, operações do Ibama resultaram em 76.095 vistorias em campo e geraram 25.101 autuações contra infrações à flora, totalizando R$ 11,8 bilhões em multas aplicadas. Além disso, houve o embargo de 18.630 km², 15.306 termos de apreensão de bens avaliados em R$ 2,6 bilhões e 4.088 ordens de destruição de maquinário irregular (estimadas em R$ 1,26 bilhão). Concomitantemente, o ICMBio lavrou 11,9 mil autuações e aplicou mais de 5 mil embargos em unidades de conservação da União, somando R$ 2,4 bilhões em penalidades.
Do ponto de vista financeiro, o Plano Safra 2026/2027 passou a atrelar descontos na taxa de juros à responsabilidade ecológica. Produtores com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado ou em processo de regularização conseguem abatimento de 0,5 ponto percentual nos encargos de custeio. A aplicação de práticas agropecuárias de baixo carbono oferece desconto adicional de mais 0,5 ponto percentual, permitindo uma redução total de até 1 ponto percentual no custo do financiamento.
Inteligência artificial e investimentos no SIM-Biomas
Para aperfeiçoar a detecção em tempo real de infrações, o BNDES liberou R$ 147,6 milhões voltados à implantação do Sistema Integrado para Monitoramento da Vegetação Natural dos Biomas Brasileiros (SIM-Biomas). O projeto pretende integrar bancos de dados com inteligência artificial, atualizando as métricas do Prodes de forma contínua e estendendo a atuação dos alertas do Deter a outros biomas, como Pampa, Mata Atlântica e Caatinga.
Critérios técnicos: supressão versus fogo
Especialistas ressaltam que as estatísticas do sistema Prodes contabilizam exclusivamente a supressão definitiva da vegetação, método distinto do registro de focos de calor. Portanto, a diminuição no desmatamento não significa obrigatoriamente arrefecimento de incêndios florestais no mesmo território.
Como o ciclo de aferição do Prodes 2026 encerrou-se em 31 de julho, queimadas posteriores ocorridas no segundo semestre não integram este balanço. Além disso, o fogo em áreas já desmatadas ou que cause danos sem a remoção total da copa e do estrato vegetal não entra na categoria de corte raso, dependendo de confirmação técnica para delimitar o impacto e a legalidade das intervenções.