A proximidade com os países do Mercosul apresenta uma oportunidade para Goiás diversificar os destinos de suas exportações, agregar valor à produção agroindustrial e ampliar os efeitos do comércio exterior sobre a economia dos municípios. Apesar da força do agronegócio goiano, as vendas para os países do bloco ainda ocupam uma parcela relativamente pequena do comércio exterior do Estado, concentrado principalmente em mercados asiáticos. Para ampliar essa participação, produtores e empresas precisam enfrentar problemas de logística, padronização dos produtos, escala de fornecimento e conquista de compradores.
Novas oportunidades para o agronegócio no interior
Um exemplo das possibilidades de expansão é a autorização concedida a produtores de Britânia para exportar melancia, melão e abóbora. Segundo o presidente da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), José Ricardo Caixeta Ramos, a habilitação foi resultado de um trabalho de monitoramento fitossanitário voltado ao controle da mosca-das-frutas, praga que pode impedir a entrada de produtos vegetais em determinados mercados.
O procedimento exige acompanhamento das áreas produtoras e apresentação de relatórios oficiais. “É necessário fazer esse monitoramento por pelo menos seis meses. No caso de Britânia, nós ficamos quase um ano acompanhando, verificando os resultados e fazendo todo o trabalho de controle para comprovar que havia condições de liberar a produção para exportação”, explicou ao Jornal Opção.
Com a inclusão de Britânia, Goiás passou a contar, segundo a Agrodefesa, com 20 municípios habilitados a exportar essas cucurbitáceas para os mercados contemplados pelo processo, entre eles países do Mercosul e os Emirados Árabes Unidos. O presidente afirma, pórem, que a autorização fitossanitária não garante, por si só, a realização de negócios, pois os produtores ainda precisam encontrar compradores, organizar o fornecimento e estruturar o transporte.
“A habilitação abre uma oportunidade, mas não significa que a venda vai acontecer automaticamente. O produtor precisa se profissionalizar, trabalhar com tecnologia, garantir qualidade e padronização, ter volume para atender à demanda e, principalmente, buscar o mercado para encontrar quem compre esse produto”, explicou.
Para ele, a expansão exige atenção à logística, à capacidade de fornecimento e às diferenças entre os destinos. “O Mercosul tem uma vantagem por serem países mais próximos, como Paraguai, Argentina e Uruguai, o que facilita o transporte rodoviário. Quando falamos de mercados mais distantes, como os Emirados Árabes, a operação fica mais complexa, principalmente porque estamos tratando de produtos perecíveis, que chegarem ao destino com qualidade”, disse.
Aparecida de Goiânia aposta em logística e indústria
A relação comercial com o Mercosul não se limita aos produtos primários do agronegócio. Em Aparecida de Goiânia, o secretário municipal de Indústria e Comércio, Marcos Abrão, afirmou ao Jornal Opção que o bloco é o principal destino das exportações do município. Ele destacou a participação dos produtos farmacêuticos, além de alimentos processados e manufaturados.
Na avaliação dele, a diversidade da estrutura industrial aparecidense ajuda a explicar a presença da cidade entre os principais exportadores goianos. “O principal destino dos produtos exportados por Aparecida é o Mercosul. O que se destaca são os produtos farmacêuticos, mas também temos produtos alimentares processados e manufaturados. Aparecida hoje é uma das cidades com maior diversidade industrial do Estado de Goiás”, afirmou.
Marcos Abrão relaciona o potencial exportador à estrutura logística da cidade, que funciona como ponto de distribuição de produtos para diferentes mercados. Para ele, a expansão desse setor pode atrair novas empresas e fortalecer a atividade industrial, criando condições para ampliar a presença de Aparecida no comércio exterior.
“Aparecida hoje é um hub muito importante em logística para o Estado de Goiás e para o Brasil. Eu tenho certeza de que essa estrutura vai atrair mais empresas, tendo em vista o movimento que a gente recebe de companhias querendo se instalar na cidade. Nos próximos dias, nós vamos ter uma grande surpresa de uma empresa que vai colocar Aparecida como centro de distribuição. Essa é uma vocação natural do município”, explicou.
Além disso, segundo o secretário, a Prefeitura encaminhou à Câmara Municipal uma proposta de projeto de lei para aperfeiçoar a legislação de atração de empresas. De acordo com Marcos Abrão, a iniciativa busca melhorar as condições para a instalação de novos empreendimentos e impulsionar a industrialização local. “Nós acabamos de mandar uma proposta de projeto de lei para a Câmara Municipal, aperfeiçoando e melhorando toda a legislação municipal para a atração de novas empresas. Eu creio que, nos próximos dias, essa lei vai estar aprovada e a gente vai dar mais um salto importante na questão da industrialização de Aparecida”, afirmou.
O processo de exportação, no entanto, depende principalmente das próprias empresas e dos órgãos federais responsáveis pelas habilitações e pela documentação exigida. De acordo com o secretário, os procedimentos não são conduzidos diretamente pela Prefeitura. Ele explica que cada empresa precisa cumprir as regras aplicáveis à sua atividade e tratar da documentação com os ministérios e demais órgãos competentes.
“A questão da exportação é muito individual de cada empresa. A empresa se habilita e providencia toda a documentação necessária para fazer a exportação, mas isso não passa pelo município. É um trâmite direto da empresa com o Ministério da Agricultura, os órgãos ligados ao comércio e as demais instituições federais”, disse.
Marcos Abrão afirma que a atividade exportadora também pode produzir efeitos sobre a geração de empregos e a circulação de renda, especialmente quando envolve mercadorias de maior valor agregado. O impacto, segundo ele, não se restringe aos trabalhadores diretamente contratados pelas empresas exportadoras, pois pode alcançar prestadores de serviços e outros negócios que integram a cadeia produtiva. “É muito importante, principalmente quando se trata de um produto de alto valor agregado. Você fixa mão de obra no município, aumenta toda uma cadeia produtiva de outras empresas que prestam serviço para as exportadoras e, principalmente, alimenta a economia local, distribuindo renda para a população envolvida”, completou.
Palmeiras de Goiás e o potencial da agroindústria
Palmeiras de Goiás também reúne características que favorecem a participação no comércio exterior. Ao Jornal Opção, o prefeito Osvaldo Cassiano (PL) afirmou que o município tem potencial para ampliar as vendas aos países vizinhos. “O Mercosul representa uma oportunidade estratégica para os produtores e empresários de Palmeiras de Goiás, tanto pela integração comercial entre os países participantes quanto pelas possibilidades de ampliação de mercados”.
Os dados encaminhados à reportagem indicam que o município ficou na quarta posição entre os exportadores goianos em 2025, respondendo por 4,64% das exportações estaduais. A cidade exportou US$ 462,7 milhões em 2024, equivalentes a 4,33% do total de Goiás naquele ano. No primeiro semestre de 2025, as vendas externas chegaram a US$ 253,1 milhões. A economia exportadora local tem forte ligação com a agroindústria, incluindo cadeias de proteína animal, como carne bovina e de frango, além do complexo da soja.
Para o prefeito, o avanço das vendas externas precisa produzir resultados para além dos números da balança comercial. “O crescimento das exportações precisa estar associado ao desenvolvimento econômico e social do município”, afirmou.
Desafios e oscilações no mercado internacional
Os números de Rio Verde, por sua vez, ajudam a ilustrar tanto as oportunidades quanto a necessidade de interpretar com cuidado os dados de comércio exterior. Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Sustentável, Denimarcio Borges, o município exportou US$ 7,76 milhões para oito dos 11 países considerados no levantamento municipal como parte do mercado do Mercosul, entre janeiro e setembro de 2026.
Entre os destinos com maior valor de compras estão Chile, com cerca de US$ 2,7 milhões; Peru, com US$ 2,5 milhões; Uruguai, com US$ 1,7 milhão; e Paraguai, com aproximadamente US$ 600 mil. A classificação utilizada pela Prefeitura inclui países associados ao bloco, como Chile e Peru, e não apenas os quatro membros fundadores, que são Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
O histórico também mostra variações expressivas. De acordo com os dados apresentados pelo secretário, as exportações de Rio Verde para esse conjunto de países somaram US$ 2,395 milhões em 2025, US$ 10,91 milhões em 2024 e US$ 57 milhões em 2023. Denimarcio Borges atribui parte da diferença de 2023 a uma operação atípica com a Argentina, o que reforça a importância de considerar operações extraordinárias ao comparar o desempenho de um ano com o de outro.
Para os especialistas, o avanço exige cautela e planejamento. O economista Márcio Dourado explica que o comércio entre os países do Mercosul não se limita à venda de produtos acabados, pois também permite que empresas distribuir etapas de suas cadeias produtivas entre diferentes territórios.
“Blocos econômicos são construídos para estreitamento de parcerias, só que muitas vezes os países são parecidos. Então, às vezes a gente pensa assim: por que fazer uma parceria com um país que produz quase a mesma coisa que o meu país? Só que aí entram as grandes companhias, entram os grandes grupos que fazem o que nós chamamos de complementação da cadeia de valor”, afirmou ao Jornal Opção.
“Uma semente de soja que é produzida aqui em Goiás está a ser plantada lá na região de Rosário, na Argentina. Então, ela sai do Brasil como exportação. Mas muitas vezes é trânsito entre uma mesma empresa, aquela empresa que tem uma planta produtiva aqui e uma planta produtiva lá. O comércio intrabloco é muito utilizado nessa complementação das cadeias de valor”, explicou.
O economista aponta que a organização coletiva é uma alternativa crucial para pequenos e médios produtores reduzirem custos. “Para pequenos e médios produtores, a melhor saída para acessar mercados internacionais é através do associativismo. Então, a organização em sindicatos rurais, em associações de produtores, cooperativas, porque assim eles conseguem ganhar escala. Seja escala mercadológica, ou seja, para acessar esses mercados, ou escala de produção”, afirma.
O prefeito de Caiapônia, Argemiro Rodrigues, também defende a articulação entre os municípios goianos para ampliar as oportunidades econômicas. “Eu acho que ninguém sozinho vai a lugar nenhum. Os municípios têm que se unificar, porque juntos são bem mais fortes. Eu vejo a importância de cada município também fortalecer a agricultura familiar”, afirma.
A economista Adriana Pereira reforça que a autorização para exportar não garante, por si só, aumento de renda ou geração de empregos. “Os efeitos podem alcançar toda a economia local. Quando o produtor amplia suas vendas e contrata trabalhadores, aumenta a demanda por transporte, manutenção de máquinas, assistência técnica, embalagens, contabilidade e serviços financeiros. A renda recebida pelas famílias também movimenta supermercados, farmácias, restaurantes e outros estabelecimentos. Esse é o efeito multiplicador da atividade econômica”, explica.
Estudo elaborado para subsidiar a política industrial de Goiás identifica oportunidades de expansão das vendas ao Mercosul em carnes e outras proteínas, derivados de soja, etanol, laticínios, insumos agrícolas, bioinsumos, máquinas e equipamentos para o campo, genética e produtos de saúde animal. A análise conclui que a diversificação e a busca por valor agregado continuam sendo pilares fundamentais para o desenvolvimento regional.