Livro de Xico Sá desvenda segredos e a morte de PC Farias

Mais de duas décadas após os disparos que ecoaram na praia de Guaxuma, nos arredores de Maceió, as causas da morte de Paulo César Farias ganham novos contornos jornalísticos. Na obra “O Tesoureiro — O Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias”, o jornalista e escritor Xico Sá investiga os meandros da ascensão, da fuga internacional e do trágico fim do principal operador financeiro da campanha presidencial de Fernando Collor.

Conexões internacionais e rotas de lavagem

O volume desviado pelo esquema nunca foi precisamente mensurado, oscilando entre projeções modestas de 400 milhões de dólares até estimativas que atingem 1 bilhão de dólares. A captação de recursos junto ao empresariado nacional encontrava justificativa na conjuntura política da época. Ao repórter Xico Sá, o próprio tesoureiro justificou os aportes maciços com uma frase contundente: “Se tem uma coisa que dá dinheiro no Brasil é o fantasma do comunismo”.

Para ocultar essas cifras, a estrutura recorreu a canais financeiros complexos pelo planeta. Os recursos transitaram pelos “Estados Unidos (Flórida), Suíça e paraísos fiscais como as ilhas Cayman, no Caribe. O tesoureiro mantinha contas bancárias nesses lugares”. Conforme aponta o livro, “A dupla [Collor e PC Farias] perdeu a noção do dinheiro que amealhou. A grana, para ser preservada, foi distribuída em contas de bancos no exterior, paraísos fiscais e operadores estrangeiros — em algumas ocasiões, até foi utilizado o mesmo caminho de mafiosos italianos”.

As consultorias externas foram fundamentais para organizar a blindagem dos valores. As orientações iniciais vieram do francês Guy de Longschamps, e o fluxo ilícito acabou entrelaçado “com a máfia italiana e com redes internacionais de narcotráfico”.

Os operadores platinos e o desvio de recursos

A gestão desse patrimônio fora do território nacional concentrava-se nas mãos de procuradores estrangeiros. De acordo com a publicação, “Destacavam-se os dois advogados e empresários argentinos: Luis Felipe Ricca e Jorge Osvaldo La Salvia”. Essa dupla detinha amplos poderes sobre o capital ilícito.

Documentos e apurações citados na obra mostram que “Ricca e La Salvia estavam autorizados a movimentar também contas na Suíça e na Holanda. Em uma agência do ABN AMRP, em Amsterdã, foram descobertos 2 milhões de dólares. A origem seria um depósito do mafioso italiano Angelo Zanetti”. Além disso, Ricca relatou que 5 milhões de dólares guardados no Holandsche Bank-Unie, em Montevidéu, chegaram a ser mobilizados para cooptar congressistas e tentar barrar a derrocada política no Congresso Nacional.

A divisão dos recursos e as suspeitas de traição

Nos bastidores, o rateio dos montantes arrecadados obedecia a uma proporção específica: “Seria 70% para o chefe do Palácio do Planalto e 30% para o tesoureiro”. Entretanto, a retenção de quantias por terceiros gerou fissuras internas. Sá expõe que o operador “tinha consciência de que estava sendo roubado pelos procuradores responsáveis por movimentar sua fortuna espalhada em contas bancárias e negócios pelo mundo. Apontava apenas dois nomes: os argentinos Ricca e La Salvia”.

Diante desse cenário, PC Farias passou a cobrar enfaticamente La Salvia pela prestação de contas dos valores sob sua custódia, atrito que pode ter desencadeado reações violentas.

A tese de queima de arquivo e o fim em Guaxuma

Antes do desfecho sangrento, a ialorixá alagoana Mãe Mirian já havia emitido um prenúncio certeiro: “Quem tem dinheiro grande em sociedade com o dr. Paulo vai tentar eliminá-lo para ficar com tudo”. Complementando essa premissa, o autor destaca que “O tesoureiro tinha ‘dinheiro grande’ — incalculável — sob a guarda de muitas pessoas físicas e jurídicas estrangeiras. Seria uma forma de lavar os recursos ilegais obtidos no Brasil”.

A versão oficial inicial alegava que Suzana Marcolino havia baleado o namorado por razões passionais e se suicidado logo em seguida. Contudo, perícias posteriores descartaram essa encenação, comprovando que o casal foi executado “em uma casa de Guaxuma, a 11 quilômetros de Maceió”. A presença de Ricca e La Salvia no litoral alagoano antes dos homicídios reforça a probabilidade de uma queima de arquivo desenhada para reter os milhões espalhados no exterior.

A teia de interesses que lucrou com o silenciamento de PC Farias envolvia múltiplos atores da política e do PIB nacional. Afinal, “Todas as grandes construtoras do país estavam envolvidas com o esquema: OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, Queiroz Galvão, Getenco, Constram, Tratex”. O destino final desse capital trancado em praças internacionais permanece como um dos maiores mistérios financeiros da história republicana.

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