Estudantes de escola pública em Goiás criam bioplástico com jatobá

Três estudantes da rede estadual de ensino em Goiás transformaram um fruto nativo do Cerrado em uma promissora inovação científica. Matriculadas no Colégio Estadual em Tempo Integral (Cepi) Osvaldo da Costa Meireles, em Luziânia, Gabriella Gomes das Neves, Isadora Rodrigues Rapatoni e Ana Luiza Mendes Barfknecht desenvolveram copos descartáveis de bioplástico e um larvicida natural a partir do jatobá.

Sustentabilidade e combate a vetores

O trabalho teve início em 2024 nas aulas da disciplina eletiva de Biotecnologia, com o propósito de enfrentar simultaneamente a poluição gerada por resíduos plásticos e a proliferação de vetores de enfermidades. Sob a orientação da professora Gabrielle Rosa Silva, o projeto alcançou projeção nacional e garantiu vaga na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), sediada na Universidade de São Paulo (USP) para o primeiro semestre de 2026.

Para a fabricação do bioplástico, o grupo apostou na polpa do jatobá devido ao seu elevado teor de fibras e amido. A estratégia evitou a utilização de insumos alimentares humanos, como o milho.

“A gente começou a pensar: isso é totalmente sustentável, já que você tem que usar um alimento, ou até mesmo comprar no mercado para produzir o produto”, explicou Ana Luiza ao Jornal Opção. Cada porção de 200 gramas da polpa rende quatro unidades de copos biodegradáveis, material que apresenta tempo de degradação estimado em até 60 dias.

Descoberta do larvicida natural

Durante a rotina escolar em 2024, a preocupação com focos de água parada estimulou novas investigações sobre a casca do fruto. “Com as pesquisas para o bioplástico, a gente descobriu que a casca do jatobá tem muitas propriedades larvicidas”, relatou Ana Luiza. A substância surge como uma alternativa biológica para combater o Aedes aegypti, vetor responsável pela transmissão de zika, chikungunya e dengue.

Testes de segurança ambiental

As etapas de validação buscam assegurar que o produto não agrida o meio ambiente. Conforme detalhou Isadora Rodrigues Rapatoni ao veículo, o grupo testa a substância em vegetais como o feijão.

“A gente está olhando mais para plantas reais, com feijõezinhos, para ver se ele causa mal à planta, como os outros que são quimicamente manipulados, ou se não causa”, afirmou a estudante. No horizonte das jovens pesquisadoras está a viabilidade de comercialização industrial e a consolidação da economia circular.

Valorização da biodiversidade e protagonismo feminino

A repercussão em eventos como a Feira Brasiliense de Tecnologia e Ciência (Febratec) e em uma competição promovida pela Samsung — na qual figuraram entre os trinta melhores projetos de mais de mil inscritos — evidenciou o potencial da pesquisa básica. “Muitas pessoas ainda têm estigma com relação à escola pública. Acho que é mostrar que os estudantes são capazes de tirar as ideias do papel e botar na prática”, pontuou Isadora.

Para a docente orientadora, a vivência acadêmica transforma a perspectiva discente. “Participar desses projetos, principalmente na educação básica, faz com que eles enxerguem a realidade e os próprios conhecimentos e hipóteses de uma forma diferente. A ciência aproxima muito mais da realidade”, declarou Gabrielle Rosa Silva.

A professora também enfatizou a relevância de incentivar o público feminino na área: “Sobre as meninas inseridas na ciência, é importante porque nós temos muito poucas meninas e mulheres na ciência. O meu foco sempre foi trabalhar com meninas e mulheres”.

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