Cientistas recuperam rins de porcos congelados por mais de um ano

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, obteve sucesso ao recuperar rins de porcos que haviam sido congelados a uma temperatura de -150 °C por mais de 365 dias. A metodologia permitiu que os órgãos reaquecidos recuperassem a coloração natural e voltassem a produzir urina, o que aponta para a retomada de funções biológicas essenciais.

O desafio da preservação prolongada

O avanço é considerado inédito na área de conservação de tecidos para transplantes. No cenário atual, a viabilidade dos órgãos é extremamente restrita pelo tempo: corações e pulmões resistem apenas de quatro a seis horas fora do corpo, enquanto os rins mantêm-se viáveis por um período máximo de 36 horas, dependendo diretamente das técnicas de armazenamento.

O estudo foi disponibilizado em 14 de outubro na plataforma bioRxiv como pré-print e ainda precisa passar pelo crivo de cientistas independentes antes de ser considerado definitivo. Além disso, os órgãos testados necessitam de avaliações mais longas para comprovar que conseguem sustentar a vida de um receptor de maneira duradoura.

“Há dez anos, eu não diria que tinha grandes esperanças de que realmente fosse funcionar”, afirmou Erik Finger, cirurgião de transplantes da Universidade de Minnesota e um dos líderes da pesquisa, em entrevista à MIT Technology Review. Segundo ele, o resultado do último transplante foi um momento decisivo para a equipe.

Como funciona a técnica de vitrificação

O desenvolvimento da pesquisa passou por testes iniciais em roedores publicados em 2023, antes de migrar para os órgãos suínos em 2025. O segredo do processo é a vitrificação, método que resfria o material biológico sem a formação de cristais de gelo prejudiciais às células, contando com o apoio de substâncias chamadas crioprotetores.

Como esses compostos químicos podem se tornar tóxicos em altas concentrações, os especialistas integraram nanopartículas de óxido de ferro à fórmula. Essa adição possibilita o aquecimento do órgão por meio de um campo eletromagnético de forma totalmente controlada, mitigando riscos de lesões causadas pelo ganho de temperatura desigual.

A operação exige precisão rigorosa no controle térmico. Ao atingir patamares próximos a -120 °C, a substância vitrificada assume consistência semelhante ao vidro, exigindo uma fase intermediária para prevenir rachaduras antes de chegar ao armazenamento final a -150 °C.

A adaptação da metodologia para o organismo suíno exigiu ajustes substanciais em relação aos testes anteriores com ratos. “Por isso, levamos três anos”, explicou John Bischof, bioengenheiro da Universidade de Minnesota que participou do estudo.

Retomada das funções renais

Durante os testes práticos, os rins foram transplantados para porcos e monitorados por duas horas. De acordo com Erik Finger, os órgãos recuperaram o tom rosado indicativo de circulação sanguínea e geraram urina em cerca de um minuto, alcançando até dois terços do volume esperado em condições normais.

Especialistas da área elogiaram o feito, destacando a capacidade de reativar um órgão de grande porte após armazenamento prolongado em frio extremo. Contudo, o monitoramento de apenas duas horas ainda é insuficiente para atestar a recuperação plena a longo prazo.

A viabilidade de guardar órgãos por meses ou anos tem o potencial de remodelar a logística cirúrgica global. Com mais tempo disponível, hospitais poderiam ampliar o raio de transporte, facilitar a busca por pacientes compatíveis e organizar equipes com maior tranquilidade. No entanto, a transição para humanos ainda esbarra em barreiras biológicas complexas, como a distribuição homogênea dos crioprotetores e a estabilidade tecidual.

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