Em mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro sobre a relação do Banco Master com o Estadão, um nome se destaca constantemente nas conversas: Rubens Ometto. Tratado como “o velho” nas negociações, o bilionário é apontado pelos interlocutores como o verdadeiro articulador por trás das decisões editoriais do veículo de comunicação centenário.
O resgate financeiro e a entrada no jornal
A ascensão de Ometto ao centro do poder do tradicional jornal paulista ocorreu após ele liderar uma captação milionária de debêntures que evitou a quebra iminente da empresa. Com uma dívida acumulada de R$ 159 milhões e fortes boatos sobre um pedido iminente de recuperação judicial, o grupo de mídia conseguiu injetar R$ 142,5 milhões por meio de bancos e grandes corporações, garantindo uma sobrevida financeira.
A operação de salvamento foi dividida em duas etapas entre março e maio de 2024. Na primeira rodada, instituições como Itaú, Bradesco e Santander injetaram R$ 45 milhões, com carência para pagamento apenas a partir de 2034. Na segunda fase, o próprio Ometto aportou R$ 15 milhões através da Cosan, acompanhado por gigantes como Hapvida, Votorantim, Ultra, Unipar, Pátria Investimentos, JHSF, Galápagos Capital e a Santalice Administração Ltda (Cutrale).
Histórico e trânsito político
Fundador e presidente do conselho do Grupo Cosan, Ometto é uma figura influente na Faria Lima há pelo menos duas décadas. Conhecido por alinhar seus investimentos à direção do poder vigente, ele se destacou como um dos maiores doadores de campanhas eleitorais desde 2018, ano em que declarou voto público em Jair Bolsonaro. Anos mais tarde, na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, aproximou-se do novo governo, chegando a presentear o petista com uma garrafa de vinho Pêra-Manca avaliada em R$ 6 mil acompanhada de um cartão escrito à mão.
Antes de fincar raízes no comando do Estadão, a trajetória de Ometto foi marcada por episódios complexos no mercado, incluindo acusações de insider trading na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), menções na Operação Lava Jato, autuações trabalhistas e rigorosas exigências antitruste do Cade. Recentemente, o empresário também enfrentou fortes pressões de acionistas e credores pela sua saída do comando da Raízen — joint venture entre Cosan e Shell — devido à alavancagem financeira extrema da companhia.
Os bastidores revelados em conversas
Nas tratativas vazadas entre os sócios, Flávio Carneiro detalha a operação a Daniel Vorcaro, afirmando que o banqueiro está “em casa” no Estadão. Em resposta ao questionamento de Vorcaro sobre como teriam ficado de fora da manobra financeira, Carneiro pontua: “Você tá sabendo disso desde o dia 1 desse projeto. O Rubens ometo que tá por trás de tudo isso. Vi acontecer na sala da casa do Geraldo [Samor, fundador do Brazil Journal] . Eles iam quebrar e o Rubens é inimigo declarado do Frias”, referindo-se à família controladora da Folha de S.Paulo.
Diante da lamentação de Vorcaro sobre a oportunidade perdida de blindar seus interesses, o sócio complementa: “Não tem o que entrar. Ele fez tudo sozinho. Tá há 6 meses montando isso para mascarar mas é tudo Ometo”. Em seguida, reforça a proximidade do banqueiro com a nova estrutura de poder do jornal: “E você entra na hora que você quiser. Quem coordena isso tudo é o Geraldo e o Marcelo [executivo do grupo Cosan]”. E conclui: “Você tá mais em casa do que você imagina ali”.
Com assentos garantidos no conselho de administração após o aporte bilionário, o grupo de novos credores e investidores não apenas evitou a falência do jornal, mas assegurou forte influência sobre os rumos e diretrizes editoriais da publicação.