Atleta perde 30 kg e corre 93 km em homenagem a Goiânia

Aos 43 anos, Jean Fernandes transformou a corrida em muito mais do que uma simples prática esportiva. O que começou como uma tentativa de mudar os hábitos e perder peso se transformou em uma trajetória marcada por disciplina, resistência e desafios que exigem tanto do corpo quanto da mente. O mais recente deles foi percorrer 93 quilômetros sem parar, em homenagem aos 93 anos de Goiânia, em um circuito montado na Track Cerrado, no estacionamento do Shopping Cerrado.

Superação e homenagem na capital

A prova começou à meia-noite de sábado e terminou por volta das 9h37, depois de mais de nove horas de corrida contínua. Sem intervalos ou pausas, Jean precisou lidar com o desgaste físico e, principalmente, com o desafio psicológico de permanecer em movimento enquanto o corpo acumulava cansaço. A presença de amigos ao longo do percurso e o significado da homenagem ajudaram a tornar a experiência especial.

“Eu gosto de fazer desafio e prestar homenagem. É um sentimento emocionante, de estar homenageando a cidade de Goiânia. É também um desafio pessoal, de ter conseguido concluir esse desafio”, conta o ultramaratonista, em entrevista ao Jornal Opção.

Da obesidade às ultramaratonas

A história de Jean com a corrida não começou na infância nem foi motivada pelo sonho de se tornar atleta profissional. A mudança veio da necessidade de cuidar da própria saúde. Na época, ele pesava 106 quilos e decidiu começar a caminhar. Aos poucos, passou a correr e percebeu os resultados.

“Eu era obeso. Eu tinha 106 quilos. Para quem tem 106 quilos, pra quem tem 1,69, isso chega a ser obesidade grau 2. Comecei a caminhar devagarzinho, depois comecei a correr. Correr do nada, eu comecei a correr. Aí, comecei a perder peso. Eu falei: ‘Opa, vou colocar na minha rotina’. Aí, coloquei. Fui tendo resultado”, lembra.

O progresso o incentivou a incorporar a atividade física à rotina. Com o tempo, perdeu 30 quilos e decidiu continuar correndo, primeiro por saúde e depois pelo prazer de descobrir até onde poderia chegar. Como não tinha tanta velocidade para provas curtas, passou a se interessar por distâncias maiores.

“Eu falei: ‘Vou correr aqui mais tranquilo e ver até onde vai o meu limite”, lembra.

A curiosidade se transformou em dedicação. Jean passou pelas maratonas, avançou para provas de 50 quilômetros e, posteriormente, encarou desafios ainda mais longos. Entre os resultados de destaque estão o primeiro lugar geral em uma prova de 50 quilômetros em Morungaba, no interior de São Paulo, e o título nos 70 quilômetros da Volta do Lago, em Brasília, em 2026.

Treino, disciplina e preparação mental

Para completar os 93 quilômetros em Goiânia, Jean intensificou os treinamentos, dedicando de três a quatro horas diárias à preparação específica. Mas sua rotina de atleta não se resume à corrida. Ele também pratica ciclismo, com pedais de aproximadamente 30 a 35 quilômetros, e musculação para auxiliar no condicionamento e na recuperação muscular.

A organização dos treinos precisa caber na rotina de trabalho. Por isso, ele distribui as atividades ao longo do dia, com corridas pela manhã e no horário do almoço. Alimentação, hidratação, descanso e suplementação também fazem parte dos cuidados necessários para enfrentar provas de longa duração.

Jean explica que a preparação para esse tipo de desafio vai além do condicionamento físico. A mente precisa estar pronta para lidar com o desconforto, a repetição dos movimentos e a vontade de interromper o esforço.

“Tem tudo um trabalho mental. Mais mental do que físico, às vezes. Senão, como é que a gente faz? Tem que trabalhar muito o psicológico”, afirma.

A vontade de desistir também faz parte da prova

Mesmo com experiência em ultramaratonas, Jean não esconde que o desafio de 93 quilômetros trouxe dúvidas desde o começo. A distância, o tempo de esforço e a repetição das voltas exigiam concentração constante. Em um percurso no qual o atleta passa repetidamente pelo mesmo espaço, continuar correndo depende também da capacidade de administrar os próprios pensamentos.

“Quando eu pisei lá, eu falei: O que eu fui inventar para a minha cabeça? Fazer 93 quilômetros!”, conta, ao recordar o início da prova.

A fala revela um aspecto pouco visível para quem acompanha uma corrida de fora: mesmo atletas experientes enfrentam momentos de dúvida. A diferença está em como lidam com eles. No caso de Jean, a experiência acumulada, a preparação e o objetivo de homenagear Goiânia ajudaram a sustentar a decisão de seguir até o fim.

O incentivo dos amigos também teve papel importante. Alguns chegaram ainda de madrugada para correr trechos ao lado dele, percorrendo 15 ou 20 quilômetros. As palavras de apoio e a presença de pessoas queridas ajudaram a transformar o desafio individual em uma experiência compartilhada.

Uma homenagem que vai além dos quilômetros

A ideia de correr 93 quilômetros surgiu quando Jean já frequentava a pista do Shopping Cerrado. Depois de percorrer 15 quilômetros no local, começou a pensar em uma maneira de homenagear Goiânia pelo aniversário da cidade. A proposta foi compartilhada com Maria de Jesus, sua companheira, que também é corredora e o acompanha nos desafios.

Com o apoio dela e a parceria necessária para realizar a iniciativa, ele intensificou os treinos e levou o projeto adiante. A homenagem também segue uma tradição pessoal: Jean já havia percorrido 100 quilômetros em Aparecida de Goiânia, durante as comemorações do centenário do município, além de completar 62 quilômetros na esteira em referência à emancipação política da cidade.

Na prova em Goiânia, a emoção esteve ligada não apenas à conclusão da distância, mas também à possibilidade de dedicar o esforço à capital. A presença de amigos reforçou esse sentimento, especialmente nas horas em que o cansaço se tornava mais difícil de administrar.

Caminhos de 300 quilômetros e novos limites

Entre os desafios mais exigentes da trajetória de Jean está o Caminho de Cora Coralina, percurso de aproximadamente 300 quilômetros que ele completou em quatro dias, em 2024. Diferentemente da pista do shopping, o trajeto passa por estradas de terra e exige navegação por GPS, planejamento das paradas e organização do descanso para continuar no dia seguinte.

O atleta também participou da Caminhada Ecológica, em um percurso de cerca de 310 quilômetros, e de uma prova de 12 horas em São Paulo, na qual percorreu 110 quilômetros. Essas experiências ampliaram sua resistência e ajudaram a construir a confiança necessária para enfrentar desafios cada vez maiores.

Apesar dos resultados, Jean não trata a corrida apenas como uma busca por títulos ou recordes. Para ele, o esporte representa uma forma de manter a saúde, preservar o bem-estar e continuar descobrindo os próprios limites. “Para mim, é minha qualidade de vida. Uma vida saudável. É o meu hobby, correr”, resume.

Companheirismo na estrada e sonhos para o futuro

Parte importante dessa trajetória é a relação com Maria de Jesus. Além de companheira, ela é corredora e oferece apoio durante as provas que exigem acompanhamento. A parceria é tão constante que os dois ganharam dos amigos o apelido de “senhor e senhora Smith da corrida”. “Onde eu estou, ela está. Onde ela está, eu estou. E é um ajudando o outro”, diz Jean.

A cumplicidade ajuda a enfrentar os desafios que fazem parte da rotina de um ultramaratonista, desde a preparação até as horas de esforço nas competições. Em provas longas, ter alguém de confiança por perto pode fazer diferença tanto na organização quanto no suporte emocional.

E os 93 quilômetros em homenagem a Goiânia não representam uma linha de chegada definitiva. Jean recebeu um convite para avaliar a possibilidade de percorrer 105 quilômetros no aniversário de Aparecida de Goiânia, em 2027. Também pretende buscar uma oportunidade em provas de montanha e tem um sonho específico: participar de uma corrida de 24 horas em Toledo, no Paraná.

A cada novo desafio, o atleta que começou a correr para perder peso reafirma a razão pela qual continua avançando. Mais do que acumular quilômetros, Jean encontrou no esporte uma maneira de cuidar de si, compartilhar experiências e transformar esforço em realização. Os 93 quilômetros, nesse sentido, representam tanto uma homenagem a Goiânia quanto mais um capítulo de uma história construída passo a passo, com disciplina, apoio e disposição para ir além.

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