Goiás prevê salto nas exportações com acordo entre Mercosul e União Europeia

O estado de Goiás projeta um ganho anual de US$ 208 milhões em exportações e um incremento de até 26% na indústria com o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. A estimativa faz parte de um estudo inédito apresentado pela Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), impulsionado pela entrada em vigor do Acordo Provisório de Comércio (ITA) em 1º de maio de 2026, que deu início ao maior mercado integrado do planeta, reunindo 720 milhões de pessoas e um PIB de US$ 22 trilhões.

Impactos na economia goiana e projeções nacionais

No cenário estadual, a projeção é criar 24.200 novos empregos nos setores exportadores. O montante resulta do acréscimo de US$ 218 milhões pela aplicação da taxa geral de crescimento de 13% sobre a pauta anterior de US$ 1,68 bilhão para o bloco, somado aos US$ 208 milhões anuais de incremento direto após a desgravação tarifária. Em âmbito nacional, o governo federal projeta avanço de 0,34% no PIB brasileiro, equivalente a R$ 37 bilhões, e alta de 0,76% nos investimentos, totalizando R$ 13,6 bilhões.

O pilar comercial provisório continua em vigência enquanto o Tribunal de Justiça da União Europeia realiza a análise jurídica integral do texto, motivada por questionamentos do setor agrícola europeu. Com a implementação total do cronograma até 2038, estima-se um aumento de 13% nas vendas do Brasil para a UE, representando US$ 6,5 bilhões adicionais, além de um salto de 26% no setor da indústria de transformação.

Desgravação tarifária e a pauta exportadora

O cronograma estabelece um período de transição assimétrico, oferecendo ao Mercosul um prazo médio de oito anos adicionais de adaptação. Enquanto a UE zerou de imediato as tarifas de 2,9 mil itens, o Brasil reduzirá as taxas sobre 4,4 mil produtos europeus ao longo de um período de 10 a 15 anos. A pauta de exportações de Goiás para o bloco europeu apresenta forte concentração de 86% em quatro itens principais: farelo de soja, minérios de cobre, ferro-gusa e carne bovina.

A modelagem da Fieg aponta que o ganho direto para os dez principais itens exportados, excluindo commodities puras, ficará entre US$ 54 milhões e US$ 72 milhões por ano após a desgravação total. Esse avanço é sustentado por cotas tarifárias preferenciais, a exemplo da carne bovina, que ganhou uma cota de 99 mil toneladas com tarifa reduzida de 7,5%, e da carne de frango desossada, com 180 mil toneladas isentas de taxas.

Desafios e adaptações para o setor produtivo

A adaptação às rigorosas exigências regulatórias, sanitárias e ambientais da Europa exige planejamento estratégico das empresas locais. Segundo o analista de desenvolvimento da Fieg, Saulo Nogueira, a transição pegou parte do empresariado de surpresa. “Desde maio, quando o acordo entrou em vigor, caiu a ficha para o empresário brasileiro e até mesmo para o governo. O acordo foi assinado rapidamente naquela reta final das negociações, e, quando se viu, as fronteiras já estavam se abrindo a partir do dia 1º de maio, enquanto o setor privado brasileiro ainda não estava muito preparado”, afirmou.

Apesar da complexidade das normas internacionais e do rigor europeu, o analista destaca que o mercado compensa os esforços financeiros. “O mercado europeu é enorme e muito rico, o que permite pagar valores superiores aos de outros destinos. Se um exportador vende para a África do Sul ou para o Egito por 100 dólares, na Europa ele consegue obter o equivalente a 130 ou 150 dólares. Trata-se de um mercado extremamente atraente”, pontuou.

Complementando a visão institucional, a gerente de internacionalização da entidade, Juliana Tormin, reforçou a urgência de adequação. “O acordo comercial já existe. O que as empresas precisam é adequar os seus produtos para que eles entrem no mercado europeu”, declarou, lembrando que a barreira tarifária cairá gradualmente, mas o foco principal recai sobre o cumprimento das exigências de sustentabilidade e rastreabilidade.

Por fim, o tratado também impõe regras rígidas de conformidade com o Regulamento Europeu voltado ao combate ao desmatamento, além de prever investimentos de R$ 1,56 bilhão por meio do programa europeu Global Gateway para projetos de infraestrutura sustentável e minerais críticos, fortalecendo a infraestrutura e a competitividade dos polos industriais goianos nos próximos anos.

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