Nos tempos em que o presidente Jânio Quadros tentava proibir as rinhas de galo em todo o Brasil por meio de decreto, a tranquilidade de Santa Rita do Bugre, no interior de Goiás, foi bruscamente interrompida. Zé Firmino das Mercês, figura conhecida na região por sua grande esperteza, viu-se diretamente afetado pela nova determinação federal que proibia os combates de aves.
A chegada da polícia no paiol
Certo domingo, apostadores e curiosos reuniram-se no fundo de um paiol para assistir ao confronto entre o galo Marechal Deodoro, de Zé Firmino, e o temido Satanás, pertencente ao coronel Tibúrcio de Almeida. No entanto, a algazarra foi interrompida pelo aviso de que a polícia estava a caminho com o delegado Aparício de Faria.
Diante do desespero geral, Firmino teve uma ideia engenhosa. Rapidamente, transformou o local em um templo improvisado, cobrindo uma mesa com toalha branca e posicionando uma Bíblia aberta. Quando a autoridade policial chegou, encontrou os apostadores vestidos de fiéis e o organizador simulando uma pregação religiosa.
Confusão com animais e fuga
Apesar da atuação convincente, a farsa ruiu quando os animais escondidos começaram a fazer barulho. O delegado ordenou a abertura dos jacás, desencadeando uma enorme confusão que envolveu soldados, um jipe desgovernado, uma mula assustada e até um porco que acabou perseguindo o cabo Gumercindo pelo terreiro.
Aproveitando o caos, Zé Firmino convenceu o delegado de que registrar a ocorrência como o fim de uma reunião clandestina traria mais glória à corporação do que admitir a derrota para duas aves e um suíno. Como resultado, o matuto foi nomeado fiel depositário dos animais, encerrando a operação sem nenhuma prisão efetiva.
A versão imortalizada na memória popular
A história rapidamente se espalhou por toda a região, ganhando diferentes versões nas rodas de conversa e barbearias locais. Anos mais tarde, questionado sobre como havia conseguido ludibriar as autoridades, o espirituoso goiano resumia sua filosofia com simplicidade.
O episódio consolidou uma lição valiosa sobre a astúcia no sertão, provando que, diante da força da lei, a melhor saída muitas vezes residia na arte de convencer a própria autoridade de que a ideia original havia partido dela mesma.