Onde encontrar a sabedoria? Esta pergunta levou o crítico Harold Bloom (1930-2019) a uma intensa pesquisa, o que resultou na publicação, em 2004, de um livro homônimo — “Onde Encontrar a Sabedoria?” (Objetiva, tradução de José Roberto O’Shea, 333 páginas). O autor colocou grupos de dois escritores, ou, em alguns casos, dois livros, em confronto, tête-a-tête, para, cotejando-os, extrair deles os conceitos fundadores de suas ideias. Esta técnica foi utilizada por Plutarco em “Vidas Paralelas”, para compor biografias de figuras eminentes da história greco-romana, contrapondo um grego a um romano; e Bloom repete esse procedimento, dois mil anos depois.
A escrita dos críticos literários nem sempre é plenamente acessível ao entendimento dos leitores leigos, muitas vezes exigindo a presença estratégica de um Champollion. No caso de Harold Bloom, ela é em circuito fechado, de si para si, ele é seu próprio interlocutor, respaldado nos grandes escritores, frequentemente acionados por ele. Ao lê-lo, parece-nos ouvi-lo em profundas divagações com seus próprios botões, ou conclamando seus pares das lides literárias a darem também seus pareceres.
O cânone, a Torá e a erudição literária
Para Harold Bloom, professor e escritor da obra de fôlego, amplamente conhecida no mundo acadêmico e em geral, “O Cânone Ocidental” (Objetiva, 552 págimas), escrever sobre a sabedoria foi uma tarefa supostamente tranquila, pois seus estudos aprofundados para o Cânone já tinham lhe dado farto material, além do acumulado em sua extensa carreira acadêmica como professor e pesquisador.
Seu conhecimento da Torá, do Talmude, dos Profetas e livros apócrifos e cabalísticos fez dele um grande conhecedor da literatura sapiencial hebraica, além, também, da Bíblia como um todo, o que inclui o Novo Testamento. No entanto, a vasta erudição do bem conceituado crítico, de origem judaica, não se limita às concepções proporcionadas pelos estudos histórico-literários sustentados pelo pensamento cartesiano. Não. No livro “Presságios do Milênio” (Objetiva, 185 páginas) ele faz sua profissão de fé, através de uma importante confissão gnóstica.
“Presságios do Milênio” é um verdadeiro sermão gnóstico. Uma abrangente retrospectiva sobre o aparecimento e significado dos anjos, a natureza dos sonhos, as experiências de quase morte, a gnose e a preocupação com o Milênio, que se aproximava, compõem o rico conteúdo desse livro, que é também a sua declaração de fé na gnose.
Confrontos entre a sabedoria grega e hebraica
O encontro do conhecimento douto dá-se em campos do saber que vão dos livros de sabedoria hebraica à poesia, à literatura e filosofia. Ora a sabedoria está nas páginas da “Ilíada”, ora na “República” de Platão. No confronto que o autor faz entre Homero e Sócrates/Platão, ele sublinha que Sócrates condenava Homero por desvirtuar a verdade. Entre a beleza da poesia de Homero e a verdade da filosofia do Sócrates de Platão, Harold Bloom inclina-se para Homero. Porém, a Beleza nem sempre carrega um conteúdo condizente com a Verdade, que, presume-se, deve ser o escopo da procura pela sapiência/discernimento. Mas ela não se restringe apenas ao campo de uma verdade factual e detectável.
O autor mostra que a sabedoria é encontrada na poesia e na literatura de grandes autores. Como se sabe, poesia e literatura escapam do plano da realidade plausível para habitar no campo da ficção imaginativa. Quanto aos livros da Bíblia Hebraica (judeus não se referem a Antigo Testamento), o autor destaca a sabedoria contida nos Salmos e Provérbios. No entanto, detém-se no Livro de Jó e em Eclesiastes. Jó é considerado de grande beleza poética, um verdadeiro poema para um inominável drama, difícil de ser entendido e assimilado pela razão humana, que espera sempre a compaixão divina.
Segundo Harold Bloom, o livro de Eclesiastes, ou O Pregador, não foi escrito por Salomão, nem Provérbios e Cântico dos Cânticos, como também não foi Davi o único autor dos Salmos. Este é um assunto polêmico. Deixando de lado a polêmica e passando para a análise de seu conteúdo, Eclesiastes é, sem dúvida, o mais rico livro em sabedoria e o preferido por Bloom; é altamente melancólico, e não deixa o leitor se esquecer de sua efemeridade, de que é como “a erva que seca e é lançada ao fogo”. É um livro curto, de apenas doze capítulos, mas seu conteúdo resume o significado da vida e de tudo que a envolve, como a vaidade, o saber e sua validade perante Deus e a eternidade. Seus doze capítulos são eivados de um conhecimento profundo da natureza humana e do mundo, vistos à luz da Providência Divina.
A descrição da velhice, quando os pilares se abalam, a vista se escurece, os dentes caem e a voz se torna tão tênue como o canto de um pássaro, culmina com o fio de prata, que se rompe, deixando a alma liberta para o encontro com o Criador. Nada tão poético e perturbador.
A supremacia de Shakespeare e o gnosticismo
No confronto entre a sabedoria grega e a hebraica o fator estético sobressai-se como preponderante na grega. A grandeza de Homero é indiscutível, e se sobrepõe no tempo. O único autor moderno comparável a Homero é Tolstói, diz Bloom. O que falta aos gregos é a confiança inquestionável em princípios superiores. Como diz o famoso crítico, “qualquer personagem de Homero sabe que não deve confiar em Zeus”. O caráter sapiencial da mitologia grega perde-se, entre outros motivos, na humanização de seus deuses. O louvor aos atos heroicos, na obra de Homero, é um de seus aspectos, mas a procura pela sabedoria na ira de Aquiles, na sua imaturidade e furor vingativo é infrutífera, e dá a ele uma vanglória, tão vã quanto inglória, apesar de ser filho de uma deusa, Tétis, e do humano Peleu.
Nas palavras de Bloom, e do conhecimento público, nossa civilização encontra-se dividida entre a cognição e a estética helênicas e a religião e a moralidade hebraicas. Segue-se o cotejamento entre Cervantes e Shakespeare, que detêm a supremacia ocidental na literatura, desde a Renascença. Cervantes cria dois personagens, Dom Quixote e Sancho Pança, e dá a eles personalidades marcantes e possuidoras de grande carga sapiencial. Shakespeare cria inúmeros personagens, dentre os quais apenas Hamlet, Próspero e Falstaff encarnam perfis de sapiência. O bardo inglês inspirou-se grandemente nos livros de Salomão, mas o rei Lear não correspondeu aos critérios salomônicos de sabedoria na velhice.
No entanto, é na construção de seus personagens, representantes simbólicos dos mais variados traços da personalidade e da psique humanas, que o gênio de Shakespeare se revela. Ele disseca a alma humana no que há de melhor e de pior. Além da dramaturgia, seus belíssimos sonetos expressam bem os anseios da alma, e acredito que seja difícil de serem superados. É no arbítrio humano que a sabedoria do Bardo Imortal toma-se de grande significado, a ponto de ser inspiradora para os estudiosos da mente, e Sigmund Freud foi buscar nela subsídios para seus estudos.
A Bíblia foi um suprimento de referências na obra shakespeareana, mas a Bênção Hebraica, que promete as recompensas divinas, está ausente em Dom Quixote e na dramaturgia de Shakespeare; seus personagens são livres de preocupações transcendentais e atentos às suas inquietações, desejos e angústias existenciais relativos à vida terrena. Harold Bloom tem em William Shakespeare o protótipo da perfeição literária e o centro do cânone da literatura ocidental. A pergunta que nomeia o livro, “onde encontrar a sabedoria?”, segue sendo respondida, na avaliação das obras literárias, com acareação entre Montaigne e Francis Bacon, Samuel Johnson e Goethe, Emerson e Nietzsche, Freud e Proust, passando em seguida ao Evangelho Apócrifo de Tomé e terminando com Santo Agostinho.
A última parte, dedicada à sapiência cristã, finaliza-se com um pequeno estudo sobre Santo Agostinho, com quem Bloom confessa não concordar. Porém, a maior discordância é do apóstolo Paulo. O autor cita o filósofo Nietzsche para, juntos, enterrarem o conceito de amor propagado por Paulo de Tarso, contido principalmente em I Coríntios. O capítulo 13, de I Coríntios, é uma das mais belas páginas dos escritos neotestamentários, e bastante representativo dos ensinamentos de Jesus, onde o Amor é apresentado como o dom supremo da vida.
Em seu parágrafo final o crítico estadunidense admite que “a sabedoria pode ou não ser identificável com a Verdade que talvez nos liberte”, frase esta reveladora de incertezas e angústia existencial do escritor. Aliás, em alguns momentos ele revela ter sofrido de depressão. “Presságios do Milênio” é de 1996, portanto anterior a “Onde Encontrar a Sabedoria?” (2004). Percebe-se, nos dois livros, principalmente no primeiro, sua incessante procura pela espiritualidade, seja ela judaica ortodoxa ou gnóstica, ou gnosticismo judaico, passando por análises do cristianismo fundamentalista americano e do Islã sufista sunita ou xiita.
Mas é no gnosticismo que ele se sustenta, que tem no anjo Metatron, ou Enoque, sua principal figura. Harold Bloom afirma que Paulo combatia os anjos no Novo Testamento, tirando-lhes toda autoridade, o que o levou a contestar com veemência o grande apóstolo, que não lhe inspirava simpatia. Na verdade, a angelologia é fundamental na crença gnóstica e Paulo, o apóstolo dos gentios e maior disseminador do evangelho de Cristo, “com sua antipatia pelos anjos, sempre afirmou que Jesus era o único mediador entre Deus e os homens”, disse Bloom, e esse é um dos principais fundamentos do cristianismo e da animosidade de Bloom pelo apóstolo Paulo. Em I Timóteo 2:5,6 também fica claro a mediação única de Cristo. Porém, apenas a Igreja Reformada observa essa afirmativa. Os católicos aceitam a intercessão dos santos e dos anjos.
Na inquietante procura pela sabedoria no cânone literário, que resultou nesta obra de grande amplitude e profundidade que é “Onde Encontrar a Sabedoria?”, o componente “Amor” não constou como elemento a ser considerado agente de relevância e mudança. Talvez seja este um caminho a nos levar a ela, à tão preciosa Sabedoria, além dos encontrados pelo excelente e erudito professor Harold Bloom.