A corrida de profissionais de saúde do Brasil por oportunidades de carreira e residência médica nos Estados Unidos registrou um salto expressivo após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada no último domingo, 25. De acordo com levantamento da RD Medicine, instituição focada na preparação para o mercado norte-americano, o volume diário de consultas saltou de uma faixa de cem a 150 para cerca de 2 mil nos primeiros dois dias posteriores ao pleito.
Demanda recorde em curto intervalo
Somente entre a segunda-feira 26 e a terça-feira 27, a escola contabilizou aproximadamente 4 mil interações, igualando em apenas 48 horas o total de contatos obtido ao longo de todo o mês anterior. Rafael Duarte, médico e fundador da RD Medicine, afirma que a demanda atingiu o maior patamar já registrado pela instituição em um intervalo tão curto.
Embora o interesse pelo exterior já estivesse em trajetória de alta antes da votação, a avaliação da diretoria é de que o desfecho nas urnas funcionou como um elemento catalisador. “A eleição foi o empurrão, não a causa”, afirma Rafael Duarte.
O gargalo das vagas de residência no Brasil
Por trás do movimento migratório está o descompasso entre a abertura de escolas médicas e a oferta de especializações. O estudo Demografia Médica no Brasil 2025, desenvolvido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB) e o Ministério da Saúde, aponta que o país deverá superar a marca de 1,15 milhão de médicos em 2035.
O mesmo levantamento estimou 635.706 profissionais em atividade em 2025, o que representa uma proporção de 2,98 médicos por mil habitantes, índice que pode saltar para 5,25 daqui a dez anos. Contudo, essa distribuição é marcada por fortes assimetrias: cidades com mais de 500 mil habitantes concentram 58% da força de trabalho médica, embora abriguem apenas 31% da população nacional.
Escassez de vagas de acesso direto
O desequilíbrio também afeta o sistema educacional. Dados apontam que cerca de 32 mil alunos concluíram a graduação em 2024, ao passo que o número de vagas de residência médica de acesso direto ficou próximo de 16 mil. “Na prática, há vaga para metade dos formandos”, afirma Rafael Duarte. “É esse médico que passa a olhar para os Estados Unidos como projeto de carreira, e não como plano B.”
Apesar da proporção entre formados e vagas, nem todo recém-formado busca a especialização de imediato. A pesquisa da USP mostra que 51,5% dos médicos iniciam a residência até um ano após o término da faculdade, enquanto 22,1% esperam até dois anos e 12,5% aguardam até três. Além disso, o levantamento indicou que 40,9% dos profissionais brasileiros atuavam como generalistas em 2024.
Exigências para atuar no mercado norte-americano
Para exercer a profissão em solo estadunidense, os médicos precisam superar barreiras rigorosas de licenciamento e validação de diplomas. O processo principal passa pela aprovação nos exames USMLE, com destaque para as provas Step 1 e Step 2 Clinical Knowledge, que medem competências médicas básicas e clínicas.
Além dos testes teóricos, os candidatos passam por validação de credenciais acadêmicas e comprovação de proficiência em comunicação e inglês voltado para a saúde. A aprovação nas etapas concede a certificação necessária para pleitear vagas em programas de residência credenciados, cuja seleção final obedece aos critérios internos de cada instituição hospitalar nos Estados Unidos.