Médico de Goiânia tem órgãos doados após morte e salva pacientes

A perda repentina do médico nefrologista Júlio César Soares Barreto, de 57 anos, deu início a uma corrente de solidariedade em Goiânia. O falecimento ocorreu no último sábado, 31, após o profissional sofrer um mal súbito e uma parada cardíaca em sua residência. Diante da tragédia, a esposa, a professora doutora e enfermeira Regiane Santos Soares Barreto, junto com os filhos, tomaram a iniciativa de autorizar a doação dos órgãos do especialista.

Trajetória dedicada aos transplantes

A decisão não surgiu por acaso, mas refletiu os valores compartilhados pelo casal ao longo de décadas. Enquanto Júlio atuava diretamente em equipes de transplante renal, Regiane divide sua rotina entre a docência na Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisas voltadas justamente para a temática de captação e doação de tecidos e órgãos.

“Ele era médico nefrologista da equipe de transplantes do HGG há muitos anos. Na vida dele, tem mais de 400 pacientes transplantados”, conta Regiane. O engajamento era tamanho que o assunto fazia parte constante dos diálogos domésticos, sendo tratado por eles como um verdadeiro propósito de existência.

“Não só conversávamos, a gente ensinava. Tínhamos isso como missão de vida”, afirma a professora.

Destino dos órgãos e impacto na fila

Graças ao ato de generosidade, partes do corpo de Júlio já beneficiaram pessoas que aguardavam na fila de espera. Um dos rins foi direcionado justamente para um paciente atendido pela própria equipe médica em que o nefrologista trabalhava, enquanto o fígado também foi transplantado com sucesso.

“Um desses rins foi para um paciente deles, da fila deles. Isso nos deixa mais felizes ainda. A gente já ficou sabendo que o fígado também foi transplantado”, relata Regiane. As duas córneas e o segundo rim foram disponibilizados para outros enfermos. Infelizmente, devido ao tempo decorrido da parada cardíaca, os pulmões e o coração não puderam ser aproveitados para procedimentos.

O luto transformado em alívio

O processo burocrático e a dor imediata exigiram força da família em um cenário adverso, marcado por 33 anos de união conjugal.

“Eu estava chorando copiosamente, mas, depois de toda essa correria de documentação, hoje me sinto muito aliviada, aceitando mais a ida do meu marido. Não é fácil e não vai ser fácil. A gente tinha 33 anos de união, dois filhos e tudo”, diz.

Resumindo o sentimento que mobilizou os parentes, a frase “Em luto, mas salvando vidas” foi cunhada durante uma conversa com a filha e compartilhada nas redes sociais.

“Ele salvou muitas vidas e vai permanecer vivo em algumas pessoas que precisavam muito dele. Ele cumpriu a missão dele, apesar de jovem, apesar de tudo”, conclui Regiane, reforçando o desejo de que o legado sirva de incentivo para a sociedade debater a doação em vida.

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