Domo de Araguainha: cratera de asteroide gigante em Goiás e Mato Grosso

Há aproximadamente 250 milhões de anos, quando os continentes formavam a massa única conhecida como Pangeia, um asteroide atingiu violentamente a região onde hoje se cruzam os estados de Goiás e Mato Grosso. A colisão colossal abriu uma estrutura circular de cerca de 40 quilômetros de diâmetro, transformando profundamente a crosta terrestre e deixando marcas geológicas que resistem até os dias atuais.

A divisão geográfica e o esquecimento histórico

O impacto cósmico não escolheu lados, mas a geografia política chegou muito depois para repartir a herança. Atualmente, 40% da estrutura estão em território goiano — abrangendo Doverlândia, Mineiros e Santa Rita do Araguainha —, enquanto os 60% restantes ficam no Mato Grosso, alcançando Araguainha, Ponte Branca e Alto Araguaia. No total, são aproximadamente 1.250 quilômetros quadrados de uma área que cruza o rio Araguaia, mas cuja existência ainda é desconhecida por boa parte dos moradores locais.

Do falso vulcão à comprovação científica

Durante décadas, geólogos tentaram explicar a formação circular imaginando que se tratava de uma estrutura vulcânica ou magmática. Pesquisas pioneiras nas décadas de 1960 e 1970, lideradas por nomes como Northfleet, Gonçalves, Schneider e Silveira Filho, buscavam um vulcão inexistente. A guinada científica ocorreu em 1973, quando Robert Dietz, Bevan French e Oliveira provaram que a feição era resultado de um impacto espacial. Anos mais tarde, o geólogo Álvaro Penteado Crósta aprofundou os estudos ao identificar evidências cruciais de metamorfismo de choque, como feições planares microscópicas em cristais de quartzo e os chamados cones de estilhaçamento.

Patrimônio mundial e pressão do ministério público

Em 2022, o Domo de Araguainha alcançou reconhecimento internacional ao ser incluído pela União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS) na primeira lista dos cem sítios de patrimônio geológico de maior relevância mundial. Paralelamente, o Ministério Público Federal tem atuado ativamente na preservação da área. Desde 2019, inquéritos civis acompanham medidas de proteção e investigam possíveis impactos socioambientais de obras viárias, como a pavimentação da rodovia MT-100, que poderiam destruir afloramentos geológicos insubstituíveis com idade próxima à Grande Mortandade, a maior extinção em massa da história da Terra.

Embora governos estaduais e municipais venham articulando iniciativas voltadas ao turismo geológico e à conservação regional, o grande desafio continua sendo transformar o prestígio científico internacional em políticas públicas eficazes. A natureza levou 250 milhões de anos para moldar essa cicatriz cósmica, e cabe agora às autoridades garantir sua proteção definitiva.

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