Selic em 13,75%: entenda o impacto no seu bolso e nas dívidas

O Comitê de Política Monetária (Copom) optou por manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A decisão unânime, tomada na última quarta-feira (4/11), interrompe a trajetória de cortes iniciada em março e reflete uma postura de cautela diante de um cenário econômico desafiador, marcado pela instabilidade externa e pressões fiscais internas.

Como os juros altos afetam financiamentos e consumo

Para o especialista em gestão financeira, controladoria e auditoria, Vanderson Aquino, a permanência da taxa em patamares elevados significa que o acesso ao crédito continuará oneroso para as famílias. A recomendação é cautela redobrada antes de assumir novos compromissos financeiros, sugerindo que o consumidor tente ampliar o valor da entrada em compras a prazo.

“No imóvel, também entram na conta o aluguel pago durante a espera e as condições da oportunidade. No carro, é preciso avaliar se a troca é uma necessidade ou um desejo que pode ser adiado. Minha orientação é comparar propostas pelo Custo Efetivo Total, que inclui juros, impostos, tarifas e demais despesas. A Selic influencia o crédito, mas não é a taxa que o consumidor encontra no contrato”, analisa Aquino.

Já a administradora e mestre em finanças, Lilian Marques Nagem Byrro, pondera que o planejamento pessoal não deve ser pautado por tentativas de prever o mercado. “Nesse contexto, para a vida individual, não acho que vale a pena tentar prever o futuro. Sim, o custo de financiamento está alto e se você puder não fazer uso dele, melhor. Porém, em alguns casos, como na compra de imóveis, caso a decisão faça sentido em seu planejamento financeiro, não vejo por que adiar uma decisão para correr um risco que pode te beneficiar ou te atrapalhar”, pontua Lilian.

Estratégias para lidar com o endividamento

O cenário é ainda mais sensível para quem já acumula dívidas. O economista Jadson Xavier alerta que, em modalidades como o cartão de crédito, os juros compostos criam um efeito “bola de neve” perigoso, com taxas que podem superar 400% ao ano. A recomendação é priorizar a renegociação de débitos e evitar o uso de limites como extensão da renda.

Lilian Byrro reforça que o endividado sofre uma dupla pressão: a inflação que corrói o poder de compra e os juros que elevam o custo das parcelas. “A pessoa que está endividada, em muitos casos, entrou no endividamento sem planejamento para conseguir fechar as contas do mês – um desafio que foi se intensificando nesse processo inflacionário. Só que agora, o seu orçamento fica duplamente menor: primeiro pela inflação que segue alta e segundo pela parcela de juros que diminui a sua receita. Nesses casos, é preciso olhar com cuidado para o orçamento, cortar ao máximo as despesas, buscar novas fontes de receita e até cogitar alguma desimobilização”, destaca Lilian.

A defasagem da política monetária

Muitos consumidores questionam por que a manutenção dos juros não reflete imediatamente em queda de preços. Segundo especialistas, existe uma defasagem temporal entre a decisão do Banco Central e o efeito prático na ponta. Jadson Xavier explica que o impacto total demora a chegar aos índices de inflação.

“Os modelos macroeconômicos trabalham com a ideia de defasagem da política monetária. O efeito começa a aparecer de forma mensurável entre seis e nove meses após uma mudança na taxa de juros, enquanto o efeito pleno costuma levar de 12 a 18 meses para se materializar nos índices de preços. Na prática, isso significa que o consumidor sente primeiro o aperto no próprio bolso, com crédito mais caro, muito antes de perceber algum alívio nos preços do supermercado. É uma assimetria desconfortável, mas é assim que a política monetária opera”, observa Xavier.

Por fim, é preciso entender que o objetivo da Selic alta não é baixar preços de imediato, mas frear a velocidade do aumento inflacionário. “O consumidor não vai “sentir o efeito dessa medida no preço” porque não é uma medida que leva a uma diminuição do preço dos produtos. O foco dela é diminuir a velocidade com que os preços aumentam. Por isso é tão difícil para o consumidor final entender o valor dessa manutenção. Contudo, uma diminuição na taxa de juros seria sim mais facilmente sentida pelo impacto maior que teria no aumento dos preços”, esclarece Lilian Byrro.

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