Saneamento básico no Brasil precisa mudar para enfrentar o clima extremo

A frequência dos eventos climáticos extremos exige uma transformação profunda no planejamento e nos investimentos em saneamento no Brasil. Especialistas apontam que o setor precisa ir além da construção de novas estruturas físicas, incorporando um monitoramento mais rigoroso, planos de contingência eficientes e uma preparação urbana voltada para cenários inéditos. O assunto entrou em debate nesta quinta-feira (5) durante o evento CNN Talks – A Economia da Transição.

Segurança hídrica e os limites da engenharia

Para Ana Paula Fioreze, diretora da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), a segurança hídrica é o pilar central das políticas de adaptação climática. Com a alternância cada vez mais intensa entre secas prolongadas e enchentes severas, a gestão dos recursos hídricos exige uma nova postura fundamentada na análise de riscos e na flexibilidade para alterar estratégias diante de cenários incertos. “A engenharia não vai responder tudo. A infraestrutura vai responder uma parte, mas há um limite”, afirmou a diretora.

A especialista defende a união entre obras tradicionais, soluções baseadas na natureza, governança sólida e monitoramento constante. Além disso, destacou que o planejamento urbano precisa antecipar problemas futuros e garantir que os alertas cheguem de forma clara à população afetada.

Antecipação e planos de contingência pelas concessionárias

O vice-presidente da Aegea, Renato Medicis, ressaltou que as empresas prestadoras de serviços precisam antecipar aportes financeiros e estruturar estratégias preventivas para assegurar o abastecimento contínuo de água durante tempestades ou secas. Essa preparação exige o cruzamento de dados meteorológicos com informações dos mananciais, viabilizando respostas ágeis como o emprego de caminhões-pipa e reservatórios móveis. “Os eventos não são mais esporádicos, eles são uma realidade”, pontuou o executivo, enfatizando que a adaptação urbana demanda conservação ambiental e modernização personalizada para cada município.

Aceleração de obras e prevenção governamental

O secretário nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, Marcio Leão Coelho, reforçou a urgência de dar mais velocidade aos aportes financeiros voltados à prevenção de desastres nas cidades. “Alguma coisa tem que ser feita e tem que ser feita rápido”, declarou. O representante governamental informou que a gestão federal aplicou mais de R$ 23 bilhões em sistemas de drenagem e cerca de R$ 4 bilhões em contenção de encostas.

Apesar da verba disponível, o secretário reconheceu que prefeituras enfrentam gargalos na elaboração de projetos e na execução dos trabalhos. Para contornar esse cenário, o governo busca simplificar os processos de contratação e diminuir o prazo entre a seleção das propostas e o início efetivo das obras públicas.

Vulnerabilidade social e prioridades para a próxima década

Os prejuízos decorrentes da deficiência nos serviços básicos recaem de maneira desigual sobre as parcelas mais vulneráveis da população, conforme apontou Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil. Dados indicam que os desprovidos de saneamento são majoritariamente pessoas pretas, pardas e indígenas, jovens com menos de 20 anos, baixa escolaridade e renda familiar de até R$ 2,4 mil.

Ao projetar as prioridades para os próximos dez anos, a executiva enfatizou a necessidade de universalizar o atendimento, combater perdas na distribuição e implementar sistemas alternativos de captação. “A grande questão é levar a água tratada para todas as pessoas”, concluiu, reforçando a urgência de proteger os mananciais e expandir a coleta e o tratamento de esgoto para mitigar riscos sanitários em períodos de enchentes.

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