Gercina Borges: a verdadeira estrategista por trás do poder em Goiás

A história oficial muitas vezes reduziu Gercina Borges Teixeira ao papel de uma figura caritativa, a “santa” que ajudava os necessitados enquanto seu marido, Pedro Ludovico Teixeira, construía a nova capital goiana. No entanto, uma análise mais profunda revela que a esposa do fundador de Goiânia exercia um papel fundamental nas articulações políticas, movimentando recursos, unindo adversários e construindo uma autoridade própria que ia muito além da assistência social.

Origens e influência na política

Nascida em Rio Verde em 26 de agosto de 1900, Gercina era filha do líder político Antônio Martins Borges. Formada normalista em Franca (SP), casou-se com Pedro Ludovico em 1918, com quem teve seis filhos. Ela chegou ao casamento já habituada ao universo da influência política, herdando conexões de sua própria família antes mesmo de o marido alcançar o governo do estado.

Sua postura firme era evidente desde jovem. Um episódio marcante ocorreu quando ela enfrentou um delegado que tentava invadir sua casa à procura do marido, exigindo uma ordem judicial. Posteriormente, diante dos riscos políticos, liderou a fuga de madrugada com as crianças até Uberaba, provando que sua atuação não se limitava a uma espera passiva pelos acontecimentos.

A força da assistência e a fundação da Santa Casa

Com a mudança para a nova capital na década de 1930, Gercina ocupou o espaço deixado entre o projeto modernizador do governo e as necessidades reais da população, como saúde e abrigo. Sua realização mais duradoura foi a mobilização para a criação da Santa Casa de Misericórdia, iniciada em 1936 com o apoio dos vicentinos, voluntários e operários.

A atuação da primeira-dama expandiu-se com a presidência da Legião Brasileira de Assistência (LBA) em Goiás e a fundação da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG). Ela recolhia demandas que a administração ignorava, incentivou cursos profissionalizantes e apoiou a criação de moradias populares conhecidas como Vila dos Pobres, consolidando seu prestígio junto à população carente.

Articulação política e os bastidores do poder

Muito além da benemerência, Gercina atuava ativamente nos arranjos políticos de seu tempo. No casarão da Rua 26, ela acompanhava reuniões em silêncio, e Pedro Ludovico costumava buscar a aprovação da esposa antes de fechar acordos importantes. Essa influência manteve-se forte durante o governo de seu filho, Mauro Borges, a quem aconselhou na escolha de nomes para a equipe, como Iris Rezende.

A lealdade familiar e a coragem de Gercina ficaram evidentes durante o golpe de 1964. Segundo Mauro Borges, em entrevista à jornalista Patrícia Machado para o Jornal Opção, o ex-governador contou que a mãe, ao ver os aviões da Força Aérea sobrevoando o Palácio das Esmeraldas, chegou e disse: “Meu filho, viemos morrer com você”.

Desafios e o fim de uma era

O poder, contudo, não poupou a família de perdas trágicas e dificuldades. Em 1952, o casal perdeu o filho Antônio em um acidente aéreo. Anos mais tarde, durante uma cirurgia de Gercina para a retirada de um tumor intestinal, o médico Hélio Moreira relatou, em depoimento ao Jornal Opção, que Pedro Ludovico precisou de uma semana para levantar o dinheiro das despesas hospitalares, tendo que vender algumas vacas — revelando que o casal, após anos no centro do poder, enfrentava escassez financeira.

Gercina Borges faleceu em 22 de novembro de 1976, aos 76 anos. Às vésperas de completar meio século de sua morte, sua biografia exige uma leitura ampla que ultrapasse o rótulo simplista de “mãe dos pobres”, reconhecendo-a como uma articuladora indispensável na história política e social de Goiás.

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