Especialista discute o fim da privatização como panaceia econômica

A ideia de que a privatização funciona como uma solução mágica para os desafios econômicos e de infraestrutura vem perdendo força. No Brasil, episódios recentes como a concessão da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), concluída em meados de 2024, evidenciaram falhas operacionais e graves acidentes decorrentes da atuação de terceirizadas. Em vez de ampliar a eficiência, o processo gerou forte volume de reclamações, cortes de pessoal técnico, reajustes desfavoráveis aos trabalhadores e debates profundos sobre a entrega do controle estratégico de serviços básicos.

O retorno da política industrial

Para aprofundar o debate sobre os limites das privatizações, a obra “Política industrial” — Como os Estados Transformam as Economias”, lançada em 2026 pelo professor e economista Ricardo Paes Mamede, desafia a premissa de que o governo deve atuar apenas como um mero regulador de mercado. O autor aponta que o século XXI resgatou a relevância da intervenção estatal para modelar estruturas produtivas e impulsionar setores estratégicos.

O sucesso econômico consolidado pela China nas últimas décadas serviu como principal gatilho para essa mudança de perspectiva global. Segundo o pesquisador, o avanço chinês funcionou como um “indício da eficácia de uma estratégia pública que dirigiu os apoios para atividades específicas”. O economista acrescenta: “Diversos estudos sobre os chamados ‘tigres asiáticos’ (em particular, Coreia do Sul, Taiwan e Singapura) e sobre o papel do Estado na industrialização dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão, por exemplo, demonstraram que o sucesso é indissociável de um conjunto de intervenções seletivas, orientandas para setores sofisticados, geralmente acompanhadas de disciplina concorrencial e de uma forte orientação exportadora”.

Riscos e aprendizados históricos

Apesar de defender a volta do protagonismo governamental, o especialista alerta que o uso de subsídios e barreiras alfandegárias para proteger produtores locais exige cautela, pois pode gerar ineficiências duradouras e conflitos geopolíticos. A grande missão é projetar medidas capazes de blindar o mercado desses perigos enquanto estimulam a diversificação produtiva e os ganhos de produtividade.

A história econômica demonstra que potências como a Inglaterra e os Estados Unidos adotaram posturas protecionistas antes de se firmarem como as economias mais avançadas do planeta. Na Alemanha, o economista Friedrich List (1789-1846) inspirou a construção deliberada de forças produtivas, argumentando que “a prosperidade não derivava apenas da liberdade de comércio, mas sobretudo da construção deliberada das forças produtivas: indústria, ciência, formação técnica, infraestruturas modernas e um sistema financeiro orientado para o investimento produtivo”. Para List, as políticas públicas funcionavam como ferramentas essenciais para evitar que países jovens ficassem presos à exportação exclusiva de matérias-primas.

A política como motor de transformação

Nas conclusões de sua obra, Mamede reforça que o direcionamento produtivo de uma nação não deve ficar refém apenas das flutuações de mercado. O autor argumenta que a evolução das capacidades de um país depende de deliberação coletiva e planejamento estruturado. As capacidades produtivas não se transformam por decreto, mas “dependem de infraestruturas, qualificações, sistemas de inovação, relações laborais, financiamento, regulação, expectativas e estratégias coletivas”. Em suma: dependem de política.

Nascido em Coimbra em 1974, Ricardo Nuno Ferreira Paes Mamede possui uma sólida trajetória acadêmica. É doutor em Economia pela Universidade Bocconi, professor no Iscte-IUL, vice-reitor da instituição e autor de diversos livros de referência nas áreas de economia política, inovação e avaliação de políticas públicas.

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