A sugestão do economista André Lara Resende de reduzir a taxa básica de juros (Selic) para 7,5% ao ano, acompanhada pela criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, reacendeu o debate sobre o futuro da economia brasileira. O plano, detalhado em seu artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, defende uma mudança estrutural para diminuir o custo da dívida pública, que atingiu patamares elevados nos últimos anos.
Visão do setor produtivo e do Corecon-GO
Para Adriana Pereira de Sousa, presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), a iniciativa traz méritos ao questionar se a meta de inflação de 3% é adequada para o Brasil. Ela enfatiza que o custo do dinheiro impacta diretamente a geração de empregos e a capacidade de investimento das empresas. “Eu sou favorável à redução da Selic e considero a meta de inflação de 3% baixa para a realidade brasileira”, destaca.
Contudo, a economista pondera que tabelar juros de forma rígida pode retirar a flexibilidade necessária para o Banco Central agir em momentos de crise. “Eu fortaleceria a participação das instituições na definição dos objetivos e preservaria a capacidade técnica do Copom de reagir quando o cenário mudar”, argumenta. Ela reforça que uma queda brusca, sem planejamento, poderia pressionar o câmbio e prejudicar a economia real.
Riscos à autonomia e instabilidade cambial
Por outro lado, o economista Everaldo Leite alerta para os perigos de limitar a atuação da autoridade monetária. Para ele, o juro alto é um problema estrutural, mas a solução não passa por restringir a liberdade do Banco Central. “Se houver um limite de resposta do Banco Central na elaboração de uma taxa de juros, não será mais necessário ter um Banco Central”, opina.
Leite também manifesta preocupação com a fuga de capitais caso a Selic seja reduzida artificialmente abaixo dos níveis de mercado. “É muito provável que haveria certa fuga de capitais, nacionais e internacionais”, afirma, destacando que o efeito manada poderia desestabilizar o real. Em sua visão, o ajuste fiscal deve ser priorizado através de uma varredura eficiente nos gastos públicos. “É necessário realizar uma varredura nos gastos e saber onde deverá cortar, sem reduzir gastos sociais, salariais e previdenciários”, pontua.
O impacto nos gastos com a dívida
Os dados do Banco Central ilustram a gravidade do cenário: em 12 meses, os gastos com juros nominais somaram R$ 1,205 trilhão, cerca de 8,99% do PIB. Lara Resende sustenta que sua proposta poderia gerar uma economia fiscal anual de aproximadamente 4% do PIB. O governo federal, entretanto, nega que o tema esteja na pauta oficial. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reforçou que não há planos para tabelamento de juros, posição compartilhada por alas do PT que buscam evitar especulações sobre a política econômica.
Enquanto o debate acadêmico se intensifica, o deputado estadual Fabrício Rosa (PT-GO) defende que o modelo atual de autonomia do BC precisa ser repensado à luz do desenvolvimento social. “Não se trata de reduzir os juros irresponsavelmente, mas de estabelecer mecanismos democráticos e objetivos para impedir que o país permaneça refém de uma política monetária excessivamente restritiva”, afirma o parlamentar, reforçando que o país precisa de um novo ciclo de crescimento que não dependa exclusivamente da austeridade.