A noite em que a cidade de Goiás quase acabou em 1900

A transição para o ano de 1900 foi marcada por profundas apreensões em diversas regiões do Brasil, alimentadas por boatos sobre catástrofes e o fim da humanidade. Na capital paulista, por exemplo, o temor de que o planeta deixaria de existir à meia-noite de 31 de dezembro de 1899 circulava com força entre os moradores mais simples, refletindo um imaginário apocalíptico típico do final do século XIX.

O clima de apreensão na cidade de Goiás

Na cidade de Goiás, o encerramento de 1899 carregava o mesmo temor, intensificado pelo calor de dezembro. Entre os habitantes, havia quem afirmasse categoricamente que o mundo acabaria à meia-noite, enquanto os mais versados nas Escrituras apostavam em um Juízo Final com direito a trombetas e fogo celeste. A notícia circulava rapidamente pelos becos e cozinhas, gerando dúvidas sobre a utilidade de se preparar uma ceia festiva.

Na venda do Siô Firmino, as reações variavam entre a busca por companhia e o pragmatismo diante do suposto apocalipse:

— Eu cá não quero morrer sozinho — declarou o velho Nhozinho da Costa, batendo o copo de cachaça no balcão. — Se o mundo vai acabar, que me encontre rodeado dos meus filhos e netos.

— Pois eu prefiro morrer na igreja — atalhou o alfaiate Ambrósio. — Pelo menos, se for mesmo o Juízo Final, já estarei no lugar certo.

— E eu não saio da cozinha! — gritou, lá do fundo, o cozinheiro Benedito, que tinha ouvido a conversa. — Se é para morrer, que seja de barriga cheia. Não vou me apresentar diante de Nosso Senhor com fome. Já basta a vida que levei!

Preparações inusitadas para a virada

Dona Emerenciana, conhecida como Siá Merência, decidiu reunir toda a família — incluindo uma cunhada com quem não se falava havia três anos — para evitar ser encontrada desorganizada por Deus. Ela passou a tarde cozinhando pratos típicos como galinha assada, arroz com pequi, empadão e guariroba, além de abrir uma garrafa de vinho do Porto guardada para ocasiões especiais.

— Si não houver outra vida, pelo menos esta termina com dignidade — explicou ao marido.

Enquanto isso, do outro lado do Rio Vermelho, a igreja de Nossa Senhora do Rosário reunia fiéis em uma vigília convocada pelo frei Henricão. O templo estava lotado de pessoas divididas entre a fé e o medo de que o Ano-Novo jamais chegasse.

Diálogos marcantes durante a vigília

Durante a celebração, o sacerdote buscou confortar os presentes em meio a questionamentos sobre como se preparar para o fim:

— Frei Henricão, o senhor acha mesmo que o mundo acaba à meia-noite? — perguntou Dona Felisberta, uma viúva que segurava o terço com tanta força que parecia querer quebrá-lo.

— Minha filha, não sabemos o dia nem a hora. Nosso dever é estar preparados.

— Mas preparado como, frei? De vestido de missa ou de roupa de dormir?

O frade conteve um sorriso.

— De preferência, com a consciência em paz.

Outros fiéis também buscaram orientações espirituais de última hora, como um homem que tentou adiantar confissões e o acerto de contas de dívidas pendentes antes das doze badaladas.

O alívio após as badaladas

Quando o relógio finalmente marcou a meia-noite, a tensão deu lugar ao silêncio absoluto, seguido por segundos de suspense. Nenhuma trombeta soou e o céu permaneceu inalterado. Constatada a sobrevivência do planeta, o alívio tomou conta dos moradores, que finalmente puderam celebrar o Te Deum e desfrutar das ceias preparadas com tanto esmero.

Na manhã de 1º de janeiro de 1900, a cidade de Goiás acordou com o mesmo casario, os mesmos becos, as mesmas igrejas e os mesmos problemas de sempre. O século novo chegara sem pedir licença, mas o mundo continuava no lugar.

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