O recém-lançado romance “O Que Ela Sussurra”, da escritora e crítica Noemi Jaffe, publicado pela Companhia das Letras, transporta o leitor para o universo da União Soviética sob o regime de Stálin ao narrar a trajetória de Nadejda Mandelstam, esposa do poeta russo Óssip Mandelstam.
A tragédia real que superou a ficção
Em 1933, Óssip escreveu um poema satírico contra Stálin e o compartilhou com um grupo restrito, culminando em sua prisão, exílio e morte em 1938, em um campo de trânsito a caminho do gulag. Para evitar o confisco, Nadejda passou décadas sem residência fixa memorizando verso por verso da obra do marido, transformando a própria lembrança em refúgio. Curiosamente, em russo, seu nome significa esperança.
Estrutura narrativa e fluxos de consciência
No romance narrado em primeira pessoa, Noemi Jaffe abdica de uma cronologia convencional e adota um fluxo de pensamento fragmentado. A autora descreve o método da seguinte forma: sua memória anda pelo tempo “como se ele fosse uma rua de terra seca”, tropeçando em valas, levantando, batendo numa porta que, quando finalmente se abre, revela que ela “estava do lado de dentro”. No meio desse fluxo, os versos de Óssip surgem integrados à prosa, sem alterações.
O sacrifício e o lirismo da obra
A narrativa também aborda os dilemas pessoais de Nadejda, que abandonou o desejo de ser pintora para se dedicar integralmente ao poeta, gerando questionamentos profundos sobre identidade e devoção. Em um dos trechos, ela reflete sobre o papel que desempenhou: “Mas o que eu queria, o que eu quero?”. A obra destaca ainda que o lirismo constante da prosa de Noemi contrasta com momentos de extrema sobriedade.
Ao final, o livro consolida-se como um documento histórico sobre a resistência feminina e a preservação da arte. Como aponta a narrativa, Nadejda sobreviveu acenando com um sim silencioso, repetindo cada verso no escuro para que a poesia jamais desaparecesse.