A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, alertou que a economia global enfrenta sérias ameaças devido aos preços persistentemente elevados da energia, ao volume recorde da dívida pública e aos riscos associados ao rápido avanço dos investimentos em inteligência artificial.
Conflitos e mercado de energia
Segundo a dirigente, o cenário econômico internacional é tensionado simultaneamente por um choque negativo na oferta de energia, agravado pelos conflitos no Oriente Médio, e por um choque positivo de demanda gerado pela tecnologia, fator que também estimula a alta da inflação. Ela destacou que “o impacto combinado dessas duas forças é extremamente desigual ao redor do mundo”, observando que o avanço tecnológico não alcança diversas nações.
As análises indicam que o fechamento contínuo do estreito de Hormuz mantém o barril de petróleo cotado a US$ 100, gerando custos adicionais de refino. “Mesmo que a guerra no Golfo termine em breve, o problema dos preços elevados da energia provavelmente persistirá por algum tempo”, declarou Georgieva, pontuando que essa pressão encarece os juros e os títulos soberanos em países como Estados Unidos, Alemanha e Japão.
O peso da dívida pública e juros
Outro ponto crítico debatido pelos 191 países-membros envolve a carga crescente da dívida pública, que alcançou o patamar mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial e tem projeção de ultrapassar 100% do PIB antes de 2030. As economias desenvolvidas, encabeçadas pelos Estados Unidos, foram apontadas como as principais responsáveis por esse endividamento excessivo.
Diante desse cenário, a diretora-gerente cobrou atitudes enérgicas dos governos. “E, ainda assim, não vemos ações decisivas nas economias avançadas altamente endividadas, onde a necessidade do momento são planos confiáveis de consolidação fiscal de médio prazo, apoiados, em alguns casos, por medidas fiscais imediatas, inclusive para aliviar parte da pressão sobre a política monetária”, afirmou.
Desafios da política monetária
Com cinco anos e meio de inflação acima da meta, Georgieva avalia que o momento exige cautela dos bancos centrais globais. “Este pode ser um bom momento para uma prudentemente mais dura na política monetária de muitos países”, comentou, classificando as elevações de juros promovidas por autoridades como o Federal Reserve como totalmente apropriadas.
Ela também enfatizou a importância da autonomia das instituições financeiras centrais. “Eles só podem fazer isso quando os bancos centrais são independentes e resistem à pressão que pode vir da área fiscal para aliviar o fardo, basicamente intervindo, comprando dívida e fazendo com que a situação fiscal seja amenizada”, destacou, acrescentando um alerta direto: “Eu chamaria isso de caubóis monetários correndo para socorrer os agentes fiscais, e minha mensagem é: por favor, não façam isso.”
Riscos e potenciais da inteligência artificial
No setor tecnológico, os investimentos em inteligência artificial superam aportes tradicionais em infraestrutura, exigindo retornos expressivos de produtividade para justificar as avaliações de mercado bilionárias. Caso ocorra uma frustração, o mercado pode sofrer um impacto severo. Por outro lado, pesquisas do fundo indicam que a tecnologia pode adicionar meio ponto percentual ao PIB global anualmente se for implementada de maneira adequada.
Por fim, a liderança do FMI reforçou a necessidade de salvaguardas regulatórias rígidas para “ajudar a administrar os perigos substanciais da IA, entre eles impactos em grande escala no mercado de trabalho, sérios riscos cibernéticos e à estabilidade, além da ameaça de que modelos de fronteira escapem ao controle humano e ajam de forma desenfreada”, defendendo também reformas estruturais para garantir segurança energética e flexibilidade empresarial.