Delegações de 30 países testemunharam nesta terça-feira (6) a utilização de areia branca dragada de uma lagoa para aterrar uma porção do oceano Pacífico em Tuvalu. A intervenção busca proteger a principal ilha da pequena nação insular contra a submersão causada pelo aumento do nível das águas.
Vulnerabilidade e urgência na linha de frente
Composta por atóis de coral e habitada por cerca de 10 mil pessoas, a nação insular possui território situado a uma média de apenas dois metros acima do mar, o que a coloca entre os locais mais vulneráveis do planeta às mudanças climáticas.
“Vocês estão pisando em solo da linha de frente”, disse o ministro das Relações Exteriores, Paulson Panapa, aos líderes reunidos antes da pré-COP, conferência preparatória para o fórum climático COP31 das Nações Unidas, que será realizado na Turquia em novembro.
“Promessas não conterão o avanço das marés. O que este momento exige são ações concretas e decisivas.”
O esforço de recuperação terrestre engloba seis hectares e integra um programa de aproximadamente US$ 50 milhões (R$ 248,5 milhões) apoiado por doadores internacionais, responsável também pela ereção de barreiras marítimas e diques de contenção.
“Estamos afundando”, disse o arquiteto Faiva Namoliki, 39, encolhido em uma jaqueta encharcada sob a chuva torrencial do lado de fora do evento.
“Aqui, eles veem a realidade”, afirmou, referindo-se aos visitantes. “Esperamos que levem essas mensagens consigo e que isso faça a diferença.”
Aceleração da crise e impactos econômicos
Pesquisadores da agência espacial americana apontam que as águas ao redor do arquipélago subiram cerca de 15 centímetros no período de três décadas encerrado em 2023, velocidade duas vezes superior à média global.
“Pequenos aumentos no nível do mar fazem uma enorme diferença, tornando as inundações maiores e mais destrutivas”, disse Jamie Ovia, chefe do departamento de mudanças climáticas de Tuvalu, dirigindo-se aos visitantes.
“Se acrescentarmos apenas 30 cm de elevação do nível do mar —previstos até 2050—, isso intensificará as inundações e fará com que sejam drasticamente maiores do que aquelas que, no passado, ocorreriam uma vez a cada cem anos.”
Conforme destacado pelas autoridades locais, tais eventos extremos trazem consequências econômicas severas para a população.
Articulação geopolítica e presença internacional
Tradicionalmente restritas a debates técnicos entre negociadores, as reuniões pré-COP contaram neste ano com forte impulso da Austrália e de nações do Pacífico para dar visibilidade à submersão de áreas costeiras.
A mobilização também serve aos interesses australianos de consolidar alianças na região e contrapor a influência da China. Contudo, a adesão ficou abaixo das expectativas: dos 14 chefes de Estado e de governo presentes, 11 representavam ilhas do Pacífico, além de autoridades de Austrália, Maurício e Timor-Leste.
As lideranças desembarcaram sob forte temporal, receberam vestimentas padronizadas e assistiram a apresentações culturais com danças, músicas e adereços tradicionais.
Expansão territorial e debate sobre combustíveis fósseis
O gerente da obra, Alan Resture, explicou aos participantes que a intervenção atual é a terceira de uma série planejada para somar 21 hectares à principal ilha do país em breve. O acréscimo é expressivo em um território total de 26 quilômetros quadrados, dimensão equivalente ao dobro da área de um aeroporto de grande porte.
Os países da região lideram as pressões globais para conter o aquecimento em 1,5ºC, limite que especialistas preveem ser ultrapassado em breve.
“Cada fração de grau importa”, afirmou o primeiro-ministro de Tuvalu, Feleti Teo, aos líderes visitantes.
Por outro lado, o governo australiano, financiador do evento preparatório, enfrenta contestações por manter exportações expressivas de carvão e gás, além de aprovar novos projetos voltados aos combustíveis fósseis.
“Aqui em Tuvalu, estamos vendo como a ação pode se concretizar”, disse o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese. “Trata-se de pessoas.”