Estudante de agronomia no polo da soja vota em Flávio Bolsonaro e sonha com terra

Município com pouco mais de 20 mil habitantes localizado no norte mato-grossense, Matupá tem sua economia e rotina inteiramente voltadas para o cultivo de soja, milho e o mercado agropecuário. Durante o período de safra, o corredor de grãos da região chega a registrar o tráfego diário de 2.000 a 3.000 caminhões. O cenário é marcado pela forte presença do bolsonarismo, dinâmica compartilhada por todas as localidades situadas ao longo da BR-163, rodovia que impulsionou o avanço agrícola e impactou a floresta amazônica no Centro-Oeste. É nesse contexto que vive Lourisvan Gondin Viana, de 23 anos, cuja família migrou em definitivo do interior maranhense para a cidade há 12 anos.

Da exploração no Maranhão ao trabalho no campo em Mato Grosso

Nascido em Arame (MA), Lourisvan mudou-se primeiramente com os pais para Peixoto de Azevedo (MT) antes de a família se estabelecer em Matupá. A trajetória familiar inclui memórias de dificuldades financeiras no Nordeste. “O trabalho no Maranhão é muito difícil. Lá eles exploram muito a mão de obra e ganha-se muito pouco”, diz Lourisvan. “Eu passava a tarde toda vendendo pastel com a minha tia para ganhar R$ 2 por dia.” Após a separação dos pais, a mãe se mudou com o novo companheiro para uma zona rural a 18 km de Matupá, em uma casa cedida por uma grande empresa de commodities. Enquanto o padrasto atuava no plantio e na aplicação de agrotóxicos, a mãe trabalhava como cozinheira.

Aos 14 anos, Lourisvan ingressou na mesma empresa como jovem aprendiz, tornando-se funcionário de serviços gerais aos 18. “Eu catava pedra, recolhia o mato no meio da soja e desmanchava cerca”, diz. “Depois de uns meses, passei a ajudar na entrega de produtos, no tratamento de sementes e no barracão de veneno, além de ser monitor de lavoura.” A experiência prática impulsionou o jovem a cursar agronomia, graduação que conclui no final deste ano com mensalidades de R$ 1.600, trabalhando atualmente como vendedor em uma revenda de insumos agrícolas.

O voto em Flávio Bolsonaro e a relação com o agronegócio

A imersão na cadeia produtiva da soja moldou as preferências políticas de Lourisvan e de sua família, que abandonaram o apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No primeiro turno da última disputa presidencial, Flávio Bolsonaro obteve 77,58% dos votos válidos em Matupá, enquanto Lula registrou 18,58%, repetindo a alta adesão ao bolsonarismo observada na região da BR-163. O estudante votou em Jair Bolsonaro em 2022 e confirma o apoio ao filho do ex-presidente. “Votei em Bolsonaro em 2022. Sei que Flávio não é o pai dele, que tem o nome forte por causa do pai. Mas vou dar um voto de confiança, pois ele pode dar continuidade [ao que foi o governo de Jair Bolsonaro]”, diz.

O apoio ao grupo político também se sustenta na percepção econômica e na oposição à fiscalização ambiental. Lourisvan aponta o encarecimento do custo de vida e defende a atuação da direita na pauta agrícola. “Antes era possível fazer uma boa compra com menos dinheiro. Hoje, o custo de vida está muito alto”, afirma. “Além disso, a direita ajuda o agro. A soja e o milho valiam mais no governo Bolsonaro.” As críticas a gestões petistas e a preferência pelo modelo econômico vigente alimentam as perspectivas do estudante para o futuro.

Planos futuros e o sonho de virar produtor rural

Com planos de se casar em 2027 com a noiva que atua na área de estética, Lourisvan pretende consolidar sua carreira na revenda de insumos antes de dar o próximo passo financeiro. O objetivo do jovem é acumular recursos para adquirir terras na região e ingressar no seleto grupo de produtores de soja locais. “Precisa ter um ‘pé de meia’ para entrar”, diz. “Aqui já são terras prontas, o que faz com que as culturas se desenvolvam melhor.” Afastando qualquer possibilidade de retorno ao Maranhão, o estudante reforça seu vínculo com o norte mato-grossense: “Meu sonho é ser produtor rural. Ninguém mais volta ao Maranhão.”

Deixe um comentário