O rico universo das invocações marianas no país ganha destaque na nova obra do escritor e historiador Luiz Antonio Simas, intitulada “Tantas Marias” e publicada pela editora Record. O trabalho mergulha na multiplicidade de títulos atribuídos à Virgem Maria, como a da Penha, das Dores, do Rosário, do Carmo e Nazinha, grande ícone do Círio de Nazaré na Amazônia.
O fenômeno de Nossa Senhora Aparecida
Apesar da vasta gama de representações, apenas uma ocupa o posto de padroeira nacional. O autor aponta que o culto a Aparecida ganhou força “num momento em que você está tentando construir uma ideia de identidade nacional muito fincada no imaginário do Sudeste”. A imagem foi encontrada em 1717 por três pescadores no rio Paraíba do Sul, no interior paulista. Retratada inicialmente como Conceição e com traços brancos, a peça emergiu enegrecida das águas, tornando-se rapidamente uma identificação fundamental para a população negra, escravizados e classes populares.
Religião e política no cenário nacional
O lançamento da obra coincidiu com debates acalorados na política e na disputa pelo mercado da fé. O autor confessa que ficou “um pouco surpreso” com a polêmica requentada, que esbugalhou “a disputa por um certo mercado da fé que está se desenhando há muito tempo no Brasil”, contrapondo setores evangélicos e Igreja Católica, diz. Movimentos para contestar o feriado ou o status da padroeira não são novos, encontrando eco em episódios históricos de intolerância e declarações de líderes religiosos.
A santa nos gramados e na cultura
A devoção ultrapassa os limites dos templos católicos e invade o futebol, como na Copa do Mundo de 1958, quando a seleção brasileira utilizou uniformes azuis associados ao manto de Aparecida para afastar o trauma de 1950. “Ces encruzilhamentos todos marcam a cultura brasileira de uma forma bastante complexa”, afirma Simas, que aponta como o apego a Aparecida no país transcende os ritos católicos. A figura mariana também ecoa na poesia de Oswald de Andrade, nas músicas de Renato Teixeira e nas manifestações carnavalescas.
O livro ainda resgata figuras históricas marcantes, como Lampião, devoto fervoroso de Nossa Senhora do Carmo que temia dever favores espirituais a entidades malignas, além de causos populares como o bloqueio da chuva em uma cidade mineira após a remoção de uma imagem considerada sensual. A obra consolida um panorama abrangente da fé popular brasileira em suas múltiplas faces.