Enquanto escrevia “Filho”, lançado pela Companhia das Letras por R$ 69,90 no impresso e R$ 34,90 no formato digital, o jornalista Thallys Braga fez um acordo com os avós para que eles mantivessem distância das páginas. O livro de 232 páginas aborda temas delicados que poderiam reabrir feridas profundas da família, como o falecimento da filha primogênita deles, Luciana, mãe do autor.
Memórias de infância e a dura realidade financeira
A relação entre mãe e filho é o fio condutor da narrativa, que expõe uma dinâmica marcada por afeto e violência constante. Luciana atuou por anos como empregada doméstica e babá na Barra da Tijuca e no Recreio, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o que proporcionou ao menino o primeiro contato com a desigualdade social. A rotina exaustiva para pagar a escola do filho e os problemas de saúde resultaram na morte precoce da mãe aos 41 anos.
A descoberta da homossexualidade na adolescência gerou episódios severos de repressão em casa, incluindo a queima de discos e pôsteres de divas pop no quintal com apoio de familiares. Apesar das dificuldades e do isolamento imposto na época, o autor reflete sobre sua trajetória de ascensão social e o sentimento de não pertencimento em diferentes meios.
O abismo entre o subúrbio e a elite intelectual
Formado em universidade pública e com passagens por redações prestigiadas, o escritor reflete sobre a condição de trânsfuga de classe. Ele aponta o desconforto de transitar entre o passado pobre em Inhoaíba e o presente cercado por elites progressistas, criticando inclusive o comportamento de conhecidos do meio intelectual.
Para estruturar sua narrativa, o autor buscou referências em grandes nomes da literatura confessional, como Annie Ernaux e Édouard Louis. No entanto, ele prefere definir sua escrita como uma tradição suburbana de contar histórias, comparando o formato à dinâmica de fofocas compartilhadas na porta de casa.
Proteção à identidade dos familiares
Com exceção de sua mãe e de seu pai — assassinado a tiros quando ele tinha dez anos —, todos os parentes citados recebem apenas iniciais para preservar suas identidades. O pacto de silêncio com os avós foi mantido, embora a esposa do tio mencionado na obra tenha tomado conhecimento do conteúdo e reagido mal.
O autor mantém a convicção sobre suas escolhas literárias. “A reação dela foi ruim. Eu não esperava o contrário. Não me arrependo de nada que escrevi. E tenho convicção de que narrar um trauma não se equipara a maltratar um menino porque ele colocou as mãos na cintura.”