Fundado sobre preceitos predominantemente patriarcais, o cristianismo estruturou sua teologia em torno de figuras masculinas, desde Jesus e seus apóstolos até a própria personificação de Deus como pai e rei. No entanto, com o passar dos séculos, o catolicismo elevou gradativamente a importância de Maria, a jovem de Nazaré descrita nos Evangelhos, transformando-a em um pilar central da devoção e da identidade religiosa dos fiéis.
A necessidade da psique humana e o sagrado feminino
Enquanto a teologia consolidava dogmas como a virgindade perpétua e a maternidade divina, antropólogos e psicólogos apontam que essa ascensão preencheu uma lacuna na mente humana deixada pelas antigas divindades femininas. O linguista e palestrante evangélico Lucas Nascimento argumenta que “a estrutura da fê da psiquê humana não tolera desequilíbrios absolutos”.
“Para compreender como o catolicismo integrou o princípio feminino no centro de sua devoção, precisamos articular quatro lentes fundamentais: a teológica, a sociológica, a arquetípica e a discursiva”, contextualiza Nascimento. Ele menciona a obra de Leonardo Boff para lembrar que a tradição hebraica já trazia a ideia do sopro criador no feminino, com o termo Ruach.
“A teologia católica, argumentam os teólogos católicos, eleva Maria não para equipará-la a uma divindade pagã, mas para posicioná-la como o ápice da criatura humana redimida, preenchendo o vazio institucional com uma presença de ternura que humaniza a relação entre a criatura e o criador”, diz Nascimento. Sociologicamente, ela atua como uma compensação em uma estrutura hierárquica masculina, tornando-se “a grande guardiã afetiva dos fiéis, especialmente das camadas populares”.
O resgate do arquétipo da Grande Mãe
Do ponto de vista psicológico, a devoção mariana dialoga com cultos milenares. Conforme aponta Nascimento ao citar Erich Neumann, “milênios antres de Cristo, a humanidade já cultuava o sagrado sob a imagem da ‘Grande Mãe’”. Divindades como Ísis, Ishtar e Deméter representavam a fertilidade e a proteção, e a psique teria reagido à tentativa do monoteísmo patriarcal de eliminá-las.
“Quando o monoteísmo patriarcal tentou banir essas figuras, diz-se que a psiquê humana reagiu, pois a alma não suporta um divino estritamente masculino”, comenta Nascimento. “A ascensão gradual de Maria no catolicismo, consolidada nos dogmas e na devoção popular, não foi um acidente histórico, mas, em uma perspectiva arquetípica, por conta de uma necessidade do inconsciente coletivo.”
Apesar disso, especialistas ponderam sobre os limites dessa leitura. “É possível fazer essa leitura sem precisar concluir que Maria seja uma ‘deusa’”, reconhece o frade franciscano Maurício Solfa. “Sociológica e simbolicamente ela ocupa um espaço do feminino que, em muitas culturas foi anteriormente ocupado por figuras divinas femininas”, acrescenta.
A inculturação no Império Romano
Historicamente, esse processo ocorreu de forma gradual a partir do século 4º, impulsionado pela cristianização do Império Romano. A antropóloga Lidice Meyer aponta que a Igreja precisou acolher massas recém-convertidas que mantinham fortes raízes com cultos maternos ancestrais.
“Quando o cristianismo deixou de ser perseguido e se tornou religião oficial, a Igreja precisou absorver e dar nova significação às massas recém-convertidas que traziam séculos de devoção profundamente enraizada às divindades femininas locais, como Ísis, Cibele e Ártemis. Para evitar rupturas violentas que inviabilizassem a evangelização, os santuários, os ritos e as imagens dessas antigas deusas foram paulatinamente reconsagrados à figura de Maria”, explica Nascimento.
Elementos visuais como o manto azul e o cuidado maternal foram adaptados para a nova estética católica, saciando a necessidade de amparo divino. No entanto, o frade Maurício Solfa reforça que o cristianismo não apenas copiou o paganismo: “Maria não é uma deusa que o cristianismo herdou das religiões antigas, mas é uma mulher que o cristianismo colocou no centro da encarnação [de Deus como Jesus]”.
Para o historiador Gerson Leite de Moraes, essa configuração aconteceu de forma orgânica, permitindo que a mãe de Jesus representasse o feminino em uma estrutura religiosa que carecia dessa expressão, consolidando-se definitivamente como uma deidade de rosto materno.