Enquanto pacientes celebram o retorno da visão nítida após cirurgias bem-sucedidas, quase 1,9 mil pessoas continuam aguardando na fila de espera por um transplante de córnea em Goiás. Dados da Secretaria de Estado da Saúde revelam que a demanda pelo procedimento permanece alta no estado, pressionada pelo volume constante de novas inscrições e por um índice expressivo de negativa por parte dos parentes de potenciais doadores.
Histórias de superação e o impacto da cirurgia
Para moradores que conviviam com doenças como o ceratocone ou lesões graves decorrentes de acidentes na roça, o procedimento representou a chance de recuperar a autonomia e evitar a perda total da visão ou do próprio globo ocular. O atendimento em unidades especializadas permitiu que receptores voltassem a enxergar com clareza e retomassem suas atividades cotidianas, transformando a dor do diagnóstico em alívio e gratidão pelo gesto de solidariedade.
“Tô vendo limpinho agora, tá bom demais”, resume Randerson Leite de Morais Junior, morador de Anápolis que recuperou a visão após passar pelo procedimento no Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás.
O principal obstáculo: a recusa e o desconhecimento familiar
Apesar da estrutura disponível em bancos de olhos e da presença de equipes habilitadas em dezenas de estabelecimentos de saúde, o principal gargalo para a realização dos transplantes é a captação de tecidos. Entre fevereiro e agosto, o índice de negativa familiar chegou a 61,3%. Entre as principais causas apontadas estão a indecisão dos parentes, o receio infundado de deformação do corpo e, sobretudo, a falta de diálogo prévio sobre a vontade do doador em vida.
“A maior parte hoje dos obstáculos que a gente mais identificou é o fato da família não saber se a pessoa que foi a óbito queria ser doador ou não; e o segundo obstáculo é que a família fica com receio de o corpo ficar deformado, mas não fica”, explica a diretora do CEROF-UFG, Katiane Martins Mendonça.
“E não adiantar a pessoa ter cinco filhos; se um filho falar que não quer doar, aí não se capta a córnea, nós não vamos constranger”, acrescenta.
Ações para ampliar a captação e reduzir a espera
Para contornar o déficit de tecidos oculares, órgãos estaduais e unidades de saúde investem na capacitação de equipes hospitalares em municípios do interior e na expansão da atuação em Institutos Médicos Legais. Como a córnea pode ser captada após parada cardiorrespiratória, a conscientização pública e a manifestação clara do desejo de doar em vida são apontadas como fatores decisivos para salvar e transformar vidas.
“A doação depende da solidariedade e da autorização familiar. Por isso, é fundamental conversar com a família e comunicar o desejo de ser doador, para que os familiares conheçam essa vontade e possam respeitá-la”, destaca a gerente de Transplantes da SES-GO, Katiuscia Christiane Freitas.